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A dança existe porque ela se move, literalmente

Entrevista com Sadler’s Wells sobre seu mais recente espetáculo brasileiro e o futuro da dança

Sofia Serbin de Skalon

Revista Sound & Colors

Sir Alistair Spalding, CBE, diretor artístico e diretor executivo do Sadler’s Wells, fala à Sounds and Colours sobre o mais recente espetáculo do coreógrafo brasileiro Bruno Beltrão e sobre o futuro da dança

A crítica Deborah Jowitt, ex-colaboradora do Village Voice, escreveu: “Se a arte é valiosa como reflexão — de um tempo, de um lugar, de uma criação —, então a dança é tão importante quanto a literatura ou o cinema, mesmo que seu público seja menor.”

New Creation, a mais nova obra do coreógrafo brasileiro Bruno Beltrão, é uma exploração do que está acontecendo nas ruas do Brasil neste momento. Beltrão e sua companhia Grupo de Rua apresentaram o espetáculo em duas sessões lotadas no Sadler’s Wells na semana passada.

A peça, curta mas poderosa, acontece em um palco quase completamente escuro. Em vez de música, há sons agudos e dissonantes. Dentro dessa paisagem árida, o humor e o movimento são ampliados: formas curvadas deslizam na ponta dos pés, corpos são lançados à frente em frustração, pernas são puxadas para o ar como marionetes, e figuras correm para trás. A vida parece invertida, enquanto os nove dançarinos exploram como continuar se movendo — e em qual direção.

A coreografia é inquietante, mas precisa; cheia de ações abruptas e sincronizadas de modo quase ilusório, e de feitos atléticos. Por vezes soa violenta e raivosa, mas também há momentos de melancolia e desejo. Segundo sua descrição, a obra “reflete sobre o que acontece quando um cenário político cria desarmonia, polariza as pessoas e limita a liberdade e a igualdade”.

Embora não haja uma narrativa clara ao longo dos 60 minutos, o público não consegue deixar de se render à intensidade emocional que ela provoca.

Este é o terceiro espetáculo que Beltrão — originalmente um dançarino de hip hop que fundou a companhia aos 16 anos — traz ao Reino Unido. Conversamos com Sir Alistair Spalding sobre o espetáculo, a curadoria do teatro londrino e o futuro da instituição.

Quando o senhor viu o espetáculo e o que o levou a programá-lo?

Nós co-produzimos o show do Bruno, portanto investimos nele antes mesmo de ser criado. Mas, curiosamente, por causa da pandemia, só consegui vê-lo no início deste ano, quando estavam em Bruxelas. Então o vi antes que chegasse ao nosso teatro.

O espetáculo já estava no cronograma antes das recentes eleições no Brasil, então vocês sabiam que seria político. Isso influenciou sua decisão?

Não particularmente. Seguimos os artistas e o que eles estão criando e desejam dizer. Não programamos conscientemente obras políticas; programamos Bruno Beltrão. Alguns de seus trabalhos anteriores foram mais abstratos, mas este definitivamente tratava do que estava acontecendo. Não evitamos obras com um viés político, mas também não as escolhemos por isso.

A última vez que o Grupo de Rua se apresentou no Sadler’s Wells foi em 2014. Desde então, houve outros espetáculos brasileiros que abordaram a situação política do país?

Vi alguns recentemente. A cena lá é muito vibrante. É muito difícil criar e sobreviver, mas o trabalho é forte. Talvez tenhamos companhias brasileiras se apresentando novamente aqui no futuro.

Diante da dificuldade de produzir no Brasil, o senhor diria que a necessidade estimula a criatividade? No cinema brasileiro, as produções tornaram-se muito mais urgentes. O mesmo acontece na dança?

Acho que isso é absolutamente verdade. Não acredito necessariamente que as coisas precisem estar ruins para gerar grande arte, mas é motivador quando há alguma tensão a ser enfrentada. Essa tensão significa que o artista tem algo a dizer. Quando existe uma situação como a do Brasil, Bruno simplesmente não poderia criar uma obra que não falasse sobre o que estava acontecendo. Era impossível para ele. Então sim, essa dificuldade gera arte — embora nem sempre gere grande arte.

O senhor sente que as artes estão se tornando mais politizadas? Notei que também programou a nova produção de Akram Khan, The Jungle Book, ambientada na crise climática.

Os artistas frequentemente respondem ao que está acontecendo e ao que os preocupa, então novamente: não evitamos isso. Voltamos sempre a trabalhar com artistas em quem acreditamos — e eles costumam reagir a questões de todo tipo. Isso é ótimo, porque fala diretamente ao público. E, com sorte, até muda mentalidades! O que eu gostei na obra de Bruno é que ela não era explícita — tudo estava nas entrelinhas.

O senhor comentou que ficou mais difícil trazer espetáculos internacionais ao Reino Unido nos últimos anos. Quão importante é continuar trazendo essas produções para o público britânico?

É essencial. É difícil, mas continuaremos fazendo, porque isso abre canais de comunicação com outros lugares, povos e culturas.

Quem veio ver o trabalho do Bruno pôde compreender um pouco mais da situação no Brasil — apenas observando os corpos, para começar. Há uma diferença, uma outra forma de expressão e de existência. Podemos ter um ideal pré-formado do Brasil — talvez o futebol, talvez Bolsonaro —, mas essas pessoas são o Brasil real. Essa troca — tanto trazer obras de fora quanto levar as nossas para outros países — é vital para a dança. É assim que ela vive. A dança existe porque se move, literalmente, pelo mundo. Essa é também sua beleza: uma troca maravilhosa. Portanto, isso precisa continuar.

O senhor está no Sadler’s Wells há quase 20 anos. Considera este o momento mais crítico para as artes?

Sem dúvida, e por vários motivos. Quando comecei, já era difícil, mas dizia respeito à situação do próprio Sadler’s Wells na época. Tivemos que fazer grandes mudanças, ser ousados — e isso era empolgante, porque estávamos no começo de algo. Agora construímos esse projeto, e é muito difícil mantê-lo nos trilhos.

Em primeiro lugar, porque por 15 desses 20 anos tivemos financiamento estagnado — ou pior, já que neste ano houve cortes por estarmos em Londres. Considerando a inflação, isso significa que nosso financiamento caiu quase 30% nesse período. Depois vieram o aumento do preço da energia, a crise do custo de vida e mais cortes do Arts Council. Tudo isso junto.

Também estamos saindo da pandemia — que, de certo modo, sobrevivemos —, mas percebemos que as coisas não voltaram a ser fáceis como antes. Todos esses fatores tornam este o momento mais difícil que já enfrentei aqui. De certa forma, durante a COVID-19 era mais simples, porque sabíamos que tínhamos de fechar. Agora tentamos seguir em frente, mas é muito difícil encontrar equipe técnica, fazer turnês, receber companhias de fora — tudo ficou mais complicado.

Portanto, estamos tentando equilibrar o orçamento para o próximo ano, mantendo a ambição mesmo com tantas restrições. Fazemos até que bem: apenas 12% do nosso dinheiro vem do Arts Council. O restante vem da bilheteria, de captação de recursos, do bar e de eventos de catering.

Legenda
Sir Alistair Spalding, CBE, diretor artístico e executivo-chefe do Sadler’s Wells, conversa com a Sounds and Colours sobre o mais recente espetáculo do coreógrafo brasileiro Bruno Beltrão e o futuro da dança.

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