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Bruno Beltrão: Ok, isso que eu faço nao é hip hop
Arnd Wesemann
Balletanz
H2 – 2005, Hip e Hop no Ano do Senhor. Quatorze rapazes de todo o Brasil, o extrato de 250 candidatos, o resultado final de uma apresentação, o mais corajoso grupo de HipHop da América do Sul: e ninguém quer jogar futebol com eles. Mas por que não? São quatorze homens, três deles no banco de reserva. Seu técnico se chama Bruno Beltrão. Eles são impulsivos, brincalhões e driblam chutando a bola por entre as pernas do adversário. Tomam lugar, se livram de toda marcação, têm a impulsão dos antílopes e jogam até mesmo de costas.
Mal começou o espetáculo, e os garotos, logo após os dois primeiros minutos, já fazem o primeiro gol, ao som dos zumbidos da música do enxame de abelhas: equilibrando-se sobre um braço, a cabeça rodando contra o chão, a perna solta elevada em posição de chute. Com velocidade inalcançável, os três dançarinos deixam de rodar com a cabeça, passando a rodar com o ombro contra o chão. E o público vai ao delírio. Quem consegue, após 120 segundos, transformar a platéia heterogênea em um muro de aplausos, pode, depois disso, fazer o que bem quiser. A batalha já está ganha.
Sem dificuldade alguma, eles passam por cima da frase tola: "Teatro tem que ser como futebol." O seu jogo é estético, ou pior ainda, é superior, ninguém se joga nos braços do outro depois do gol. Ao invés disso, os pares se beijam na boca longamente e revolvem a goela dos amigos com a língua, matando a nós, no estádio, de vergonha e de rir. HipHop é mesmo mais extraordinário do que futebol. Porque Beltrão quebra regras. Também as regras do HipHop. Nada de música do Vanilla Ice, e sim, Cooljazz da banda francesa Cqmd.
Com ele, o *locking* parece fazer com que os membros aparentem ser mais longos, diferentemente do que no HipHop. Os rapazes também são mais ágeis na corrida do que o habitual para os dançarinos de Break. Eles dominam o palco até o último centímetro quadrado. Sua bola é uma luzinha de spot que treme nervosamente sobre a pista *halfpipe* na parede do fundo.
Sua força motriz lembra a força de arrancada dos corredores de cem metros, que cometem um erro de largada após o outro, caem num abraço, transformam a luta a dois num dueto e provocam, num salto, uma dupla posse de bola que nenhum juiz poderia apitar e nenhum Ballet consideraria como um dueto: tudo dramático demais, um virtuosismo que quase não se vê. Os quatorze dançarinos, voando, caindo e pulando fazem com que tais esforços pareçam não existir. Essas coisas vão contra o HipHp, contra a "pose" dos metidos, contra os campeonatos abertos, contra o respeito obrigatório.
Bruno Beltrão é acusado de ter traído a *Streetdance* no palco, pois a cultura HipHop, que já passou dos trinta, quer se manter tradicional e eternamente jovem. É demais para a cabeça do pessoal do HipHop, que continua querendo só fazer batalha e falar "Cool, man", o fato de que alguém, que aprendeu *Streetdance* em Niterói aos 13 anos de idade com o israelita Yoram Szabo, que alguém de iniciativa própria, tenha ido estudar Dança e História da Arte numa Universidade no Rio, e a partir daí, continue a trabalhar.
"Hey, eu tenho respeito", diz Bruno Beltrão, amavelmente: "Okay, o que eu faço não é HipHop." Os garotos da rua é que devem definir o que é e o que não é HipHop. Mas os seus críticos, que amam dança artística, não aceitam tanta subestimação. Eles o comparam a William Forsythe. Assim como este coloca o Ballet em um contexto contemporâneo, também deu certo no HipHop para Bruno Beltrão recarregar a *Breakdance* com inteligência de composição, fabricar um condensado e não apenas derramar a *Streetdance* sobre o palco, mas respeitar as regras do Teatro. Isso combina com o HipHop. Respeito às leis.
Assim é certo. Manter sempre a bola baixa, para ela girar do jeitinho exato: isso funciona. O jornal O Globo, há pouco tempo, condecorou Beltrão como coreógrafo do ano, e logo depois, sete co-produtores europeus lhe deram tanto dinheiro que ele pôde realizar dois sonhos: o de finalmente conhecer o Brasil inteiro, pois de outra forma, não se pode imaginar o quanto o próprio país é inacessivelmente grande, e depois, o de formar uma companhia de dança maior, não com apenas cinco homens como no seu último espetáculo de sucesso "Telesquat", mas com quatorze homens como força de combate.
Assim é a tradição brasileira: não pensar pequeno, mas pensar grande, e com uma banda bem formada fazer muito sucesso. Não se conhece muito por aqui os pequenos grandes solistas, duos e trios. E foi assim que se chegou a este momento, que de um só golpe, fez Beltrão famoso: Quando foi dito, pela última vez, que na Dança Contemporânea se dança? A sede pelo fim do anti-virtuosismo já é tão enorme, que em um espetáculo como H2, 2005 se experiência um suspiro de alívio de cem pessoas: Finalmente! Aplausos espontâneos um atrás do outro.
Helena Katz, a grande soberana da Dança brasileira, imediatamente profetizou que as diferenças entre HipHop e Dança Contemporânea desaparecerão dentro dos próximos cinco, ou no máximo, dez anos. Simplesmente pelo fato de que o HipHop já começou há muito tempo a envolver muitas gerações e, porque o HipHop não quer mais continuar dividindo o seu antigo domicílio – as arcadas em frente ao teatro da cidade – com skatistas e malabaristas, e sim, se infiltrar na cultura burguesa através do palco, como já aconteceu na França.
Por Bruno Beltrão não apenas utilizar o HipHop, mas por ele ser um verdadeiro dançarino de Break, ele está na linha de fogo das duas culturas. Primeiramente ele é atacado pelo meio do HipHop, que sobreviveu apesar das definições negativas ocorridas desde o início. O HipHop podia , sim, na cultura pura, ser dançado em todo caso por negros americanos, ainda que os chineses executassem *Poppings* e *Headspins* perfeitamente. Também o culto à masculinidade deveria se manter puro, mesmo que, nas ruas de Niterói, como conta Beltrão, dancem mais meninas do que meninos já há muito tempo.
Bruno Beltrão é um ás contra tais repreensões: "I go beyond HipHop", diz ele a seus críticos. "Ah, sim" respondem eles, "atrás. Assim está bem."
E do fundo do baú contemporâneo vem a acusação que o Ballet já precisou agüentar uma vez: os primeiros estudantes de Ballet mal se encontraram com os contemporâneos e precisaram ouvir o quanto tortos e anti-naturais eram seus corpos. Algo parecido atinge os dançarinos de HipHop: eles seriam esportivos demais, ou pior ainda, acrobáticos demais, ambos como substituição à falta de inteligência, e inteligência é algo que não falta a Beltrão.
Ele não quer ensinar dança para qualquer pessoa. Ele procura corpos que se sintam bem na técnica que dominam, corpos que sejam tão dedicados ao HipHop que ele possa apresentar seus dançarinos com total respeito para poder desafiá-los cada vez mais. Quem mais poderia, durante a quietude que se aproxima, dançar sozinho uma *Slow Fight*, constantemente cruzando os braços sobre o rosto, de forma que , alternadamente, se associe um garçon polindo um prato à Bruce Lee numa oração matinal?
Este ritual não é chato em nenhum segundo, mas é quase exatamente o que se imagina sobre Dança Contemporânea: ausência de sons, ausência de mensagens, abertura a associações, só que dançado mesmo de forma excelente. Beltrão diz que H2- 2005 é para ele, apenas o começo. O início de uma revelação. Quantos milhões de combinações a *breakdance* se permite, uma vez livre da placenta da sua própria definição, é algo imprevisível.
Ninguém está mais abismado frente a esta descoberta do que o próprio Beltrão, que após este espetáculo, quer se recolher e trabalhar com amigos num software, para, pelo menos virtualmente, tentar descobrir a que novo horizonte ele se dirigiu. Mil passos ao mesmo tempo são imagináveis, mas como se deve organizar isto coreograficamente? Após H2- 2005, receia-se que venhamos a ter algo a ver com um segundo Merce Cunningham.
Assim como ele brinca com seu LifeForms-Software para dar uma idéia de toda a extensão do que há de ultrapassado no modernismo da Dança, Bruno Beltrão também vai querer ver primeiro qual a medida da cultura ultrapassada de HipHop que realmente cabe a ele.
***Arnd Wesemann**** é editor-chefe da revista alemã Ballet Tanz.*


