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Dança de Rua ganha status de coreografia
O diretor Bruno Beltrão seleciona dançarinos em todo o País para novo espetáculo
Lívia Deodato
Estadão
Rodrigo Marques, de 25 anos, veio de São José dos Campos apenas para participar de um teste em São Paulo. Era um teste muito especial e ele estava bem ansioso. Chegou um dia antes, pois teve medo de não encontrar mais vagas para a tal seleção. "Deixei minha filha, Ingrid, de 8 anos, com a avó. Quero muito ser aprovado, mas não sei o que faria sem ela", conta. Por não ter nenhum conhecido por aqui, foi dormir na casa de uma tia em Jundiaí. Ele chegou para a 'audição no dia seguinte às 7 horas, tres antes do horário marcado.
Rodrigo era um dos garotos que participavam, na semana passada, do teste para escolha do elenco do novo espetáculo do Grupo de Rua de Niterói, sob direção de Bruno Beltrão. O novo grupo, que deverá ser formado por 22 bailarinos até o dia 19, participară em 2005 de seis festivais na Holanda, Alemanha, Bélgica e França. Serão oito meses de ensaios e todos os selecionados irão receber um salário fixo, pago pelos organizadores dos festivais, "Só que teremos feras, diz Beltrão.”
Apesar da expectativa, os candidatos conseguiram se apresentar num clima descontraído e animado. Ao início da seleção, fizeram um meio círculo e só entravam na roda quando sentiam que podiam mostrar algo de novo, como fizeram Edvaldo Pereira da Silva, o Piu, e Ricardo Alves, o Pituka, ao esquecerem a timidez.
Existem praticamente dois movimentos na dança de rua: o free style, modelo livre coreográfico, e o b-boy, a chamada dança de chão, com direito a muitos contorcionismos. Foi o que explicou o aplicado Rodrigo Marques. Outro candidato, Anderson Andrade, o Catatau, mostrou o movimento spin head, uma variação do b-boy, em que o dançarino gira o corpo com a cabeça apoiada no chão, sem o auxílio das mãos e dos pés. Marcos Campos, de 27 anos, já um bailarino profissional, acha que esse tipo de dança é "suicídio". Ele lembra que um co- lega seu, de 17 anos, morreu ao fazer o movimento. "A minha linha é coreográfica, mas acho interessante equilibrar todos esses movimentos", afirma Campos.
Os candidatos a uma vaga, em sua maioria, se dizem profissionais e dançam há pelo menos quatro anos. Com um lenço preto amarrado na cabeça, ao estilo dos rappers americanos, Clinger Soa- res, de apenas 17 anos, surpreendeu com sua dança de chão, girando sobre o tronco com as pernas voltadas para cima. "Eu treino muito, gosto do que faço", justifica ele. Cerca de 19 rapazes passaram pela audição do primeiro dia, um número relativamente baixo para a cidade de São Paulo, segundo Beltrão, o diretor da companhia. "Existe certa resistência por parte de diferentes grupos", conta ele, que procurou fazer divulgação diretamente nos "guetos" e companhias de danças. No entanto, a falta de "quantidade" foi recompensada pela alta qualidade técnica. "Estou surpreso com o trabalho deles", ressalta Beltrão.
Mauricio Araújo, o Cocada, dança há dez anos e não tem falsa modéstia. "Mando bem no que faço. Se eles não me escolherem, não sei quem vão escolher", diz o dançarino de 25 anos. Os garotos também se apresentaram em duplas, como se estivessem numa espécie de luta ritmada, o que eles cha- mam de rap attack ou up-hop.
No fim de semana, houve outra audição no Rio, que atraiu mais 97 candidatos. As próximas cidades serão Goiânia, Be- lo Horizonte, Belém, Recife, Curitiba e Porto Alegre. Só de- pois sai a lista final dos 22 escolhidos. Haja ansiedade.
Bruno Beltrão, um jovem disposto a inovar a break dance
Bruno Beltrão conheceu a dança assistindo a videoclipes de grupos e rappers liga- dos ao hip hop, recheados de break dance. "Eu tinha apenas 13 anos, e meu conhecimento dessa cultura veio via TV. Adorava imitar e, aos 14, resolvi fazer aulas com um professor americano. Depois passei a dar aulas em academia e dançava nas ruas."
A idéia cresceu e em 1996 nasceu o Grupo de Rua de Niterói, que foi se aprimorando. "Sem- pre tive vontade de modificar a dança de rua, colocar essa linguagem em outro lugar, experimentar mais, com muita seriedade." Assim, com o patrocínio de festivais europeus, entre eles o badalado Spring Dance, Beltrão busca dançarinos de rua de todo o Brasil para criar o seu novo projeto: trabalhar nos moldes de uma grande companhia de dança, com cerca de 22 participantes, usar os movimentos do hip hop com nova concepção. "A inspiração vem de William Forsythe, que diante dos códigos do balé busca novas possibilidades, uma forma de escape. Na dança de rua, o espaço é pequeno e tudo está volta- do para o corpo, que deve ser virtuoso e veloz. A idéia é trabalhar com um espaço amplo e tentar conquistá-lo." O novo grupo começa os ensaios em agosto e cai na estrada em 2005, com agenda cheia de apresentações na Europa durante todo o ano. (K.D.)


