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Enfim, um pouco mais de dança
Panorama RioArte começa amanhã servindo como redenção num ano de raras estréias coreográficas
Adriana Pavlova
O Globo
Demorou, demorou muito, mas, enfim, a temporada coreográfica carioca vai começar, embalada por mais uma edição do Panorama RioArte de Dança, que abre suas portas para o público a partir de amanhã, espalhando 28 companhias.trabalhos por cinco palcos da cidade. Exagero? Não parece. Nunca, pelo menos desde a segunda metade dos anos 90, a oferta de espetáculos de dança por aqui foi tão escassa.
E nunca, consequentemente, o Panorama foi tão aguardado por quem, por se interessar pelos trabalhos de coreógrafos e bailarinos, teve que se contentar até agora com algumas raras surpresas escondidas em festivais como o Dança Brasil do Centro Cultural Banco do Brasil ou o Circuito Carioca de Dança. Até o cardápio internacional, que, pelo menos nos últimos anos, sempre foi farto, em 2003 deixou a desejar, exceto pelas passagens do Ballet de Frankfurt (de William Forsythe) e do Momix (em cartaz de hoje a domingo no Municipal).
A 12ª edição do Panorama, festival bancado pela prefeitura ao lado de parceiros variados, surge, assim como uma redenção. As companhias cariocas que pouco tiveram de chance de se apresentar aqui — em alguns casos, como os de Dani Lima e Carlota Portella, houve duas semanas de temporada de espetáculos inéditos no Espaço Sérgio Porto — têm tratamento de estrelas dentro da programação do evento. São cerca de 20 criadores na ativa mostrando trabalhos inéditos, especialmente criados para a ocasião.
Gente de peso, como a própria Carlota ou Paulo Caldas, misturada a veteranos como Aluísio Flores (que fez parte dos primeiros Panoramas) ou a novas invenções de nomes que estão sempre inventando, como a dupla Ikewalsinats, que este ano se apresenta separada: Gustavo Ciríaco com mais outros três bailarinos e Frederico Paredes num solo. Para os que têm interesse pela vanguarda que vem de fora, há bastante variedade.
Tem dança francesa antenada (Alain Buffard), artista inglês de fine art (Robert Pacitti), panfletagem política (Maguy Marin) e ainda os segredos da desconhecida dança de Cabo Verde (Raiz de Polon). Para aproveitar a programação, um custo-benefício bem interessante: cada ingresso por R$ 2, com estudantes e idosos pagando a metade. Abaixo, algumas apostas do primeiro fim de semana do Panorama. O festival, é bom lembrar, fica em cartaz até o dia 9 de novembro, com apenas um dia de descanso (na segunda-feira, dia 3). Na maioria das noites, há sessões em mais de um teatro.
**SÁBADO** **Hip hop x dança contemporânea**
Bons de inventar moda, os curadores do Panorama, Lia Rodrigues e Roberto Pereira, decidiram deixar que o festival deste ano fosse infiltrado pelo hip hop. Com essa ideia na cabeça, convidaram Bruno Beltrão, diretor do Grupo de Rua de Niterói, para que ocupasse o Teatro Carlos Gomes durante uma noite inteira como bem entendesse. Beltrão entendeu a missão e convocou mais de 20 grupos de hip hop escondidos na cidade e adjacências. A maratona da dança de rua promete.
A partir das 20h, logo na entrada, o público vai dar de cara com bailarinos de street dance brincando de dança contemporânea e balé clássico. Eles, que nunca tinham posto os pés no festival, nem para ver nem para dançar, vão se divertir com o Pássaro de Fogo. As performances se espalham pelos dois andares do teatro. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. Vai ter muita brincadeira em torno da erudição da dança clássica, com gente se vestindo até com roupas de balé.
É uma forma de mostrar a insatisfação desse tipo de dançarino com o mundo da dança — diz Beltrão, que convocou, entre outros, a Rio Hop Company, o Break Atari Funckers e o Street Masters. Depois das instalações, será a vez de tomar o palco. Um clássico do break e do hip hop, o Grupo de Break Consciente da Rocinha, abre o espetáculo, seguido do Balé de Rua de Uberlândia, que foi o primeiro grupo a misturar a dança de rua com o contemporâneo. Tem ainda um trabalho novo do veterano Hugo Alexandre com 20 bailarinos. E, no fim de tudo, um mix.
Ou seja, ícones de dança contemporânea como Dani Lima, Esther Weitzman e Paulo Caldas vão fazer confronto em cena com o pessoal da street dance. **DOMINGO** **Cariocas têm a sua vez**
O Panorama é um festival de muitas mostras. Dentro dessa diversidade, desde seu início, em 1992, os criadores cariocas sempre tiveram regalias. Neste ano, não vai ser diferente, com noites inteiras dedicadas ao pessoal daqui. Incluindo o programa com os Novíssimos, no dia 9 de novembro, com a mais nova geração de coreógrafos da cidade.
O painel carioca começa no domingo, às 19h, no principal palco do Panorama, o Teatro Carlos Gomes, onde três coreógrafos aproveitam para mostrar coreografias inéditas. A partir de uma proposta da curadoria, a dupla Ikewalsinats (Frederico Paredes e Gustavo Ciríaco) se separou momentaneamente para criar trabalhos distintos. Primeiro, Paredes mostra seu "Intervalo", uma peça solo. Em seguida, é a vez de Ciríaco, que apresenta "Jorge", uma reflexão sobre a identidade interpretada por ele e por outros três bailarinos, que vão trocando de personalidade durante 25 minutos.
— No meu caso, não há intenção de usar a dança para ilustrar nada, apesar de eu ter partido de gravações de sons de pássaros — diz Paredes. — É uma pesquisa sobre identidade, percepção e discurso, porque o tempo todo os intérpretes estão se apresentando — diz Ciríaco, que mistura anônimos a famosos como Gal Costa, Sylvester Stallone e o jogador Rivaldo. A noite carioca se completa com Andréa Maciel, uma gaúcha que há anos engrossa a lista de coreógrafos radicados no Rio, que apresenta "Imagens coreográficas", mais uma etapa de sua pesquisa entre o real e o virtual.
Em cena, só ela e o videomaker Paulo Mendel. — Haverá uma mesa de edição no palco para que ele manipule as imagens, jogando-as no telão — diz Andréa. **SEXTA-FEIRA** **Um candidato à polêmica**
Desde meados da década de 90, quando o Panorama se internacionalizou, o público daqui vem aproveitando o festival para se globalizar e lidar com espetáculos que fazem parte do circuito mais vanguardista da dança mundial. De Panorama em Panorama, a platéia foi se acostumando a levantar, chiar, gritar e aplaudir.
Este ano, um francês esquisitão, que adora tirar a roupa dele e de seus bailarinos e reconstruir seus corpos, é o grande candidato da vez a promover bate-boca. Quem viu outro francês, Xavier Le Roy, que esteve no palco do festival em 2000, sabe que tipo de coisa Alain Buffard fará por aqui. Em sua primeira visita ao país — fruto da parceria do festival com o Consulado da França no Rio — Buffard chega logo com três trabalhos.
O coreógrafo que fez parte da companhia de Daniel Larrieu e mais tarde passou uma temporada em Nova York abre o Panorama oficialmente para o público amanhã, às 20h, com "INtime.EXtime" e "MORE et encore", nos quais surge acompanhado de bailarinos. Completando, no dia seguinte, às 22h, com uma performance solo, "Good boy", no Espaço Sérgio Porto. — Quero que o público reflita e que novas sensações e percepções alimentem seu imaginário — diz Buffard.
— "Good boy", por exemplo, é retrato da minha ousadia de mostrar pela primeira vez a fragilidade do corpo, a doença, indo contra essa idéia de dança fluida, de um corpo glorioso. Em "INtime.EXtime" sigo pelas mesmas pistas só que com mais ênfase. Ofereço uma nova geografia do corpo, através de desfigurações e transformações usando malas e poliéster para deformar o bailarino.


