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Festival confirma vocação de fazer pensar
Panorama RioArte de Dança: Vanguarda da cena internacional e diversidade da dança carioca destacaram-se na décima edição do evento
Silvia Soter
O Globo
No último domingo, o Rio despediu-se do mais importante e intenso evento da dança contemporânea carioca. O décimo Panorama RioArte de Dança, nesta edição comemorativa, espalhou-se pela cidade lotando as plateias do Teatro Carlos Gomes e do Espaço Sérgio Porto, vazando para outros locais com programações de vídeo e uma videoinstalação de Maurício Dias e Walter Riedweg, nos Arcos da Lapa. Em quase todas as 12 noites de festival, a programação foi dobrada, aumentando a oferta e a possibilidade de escolha do público e fazendo com que alguns espectadores zarpassem de um teatro no outro, numa maratona cansativa mas certamente compensadora.
Felizmente, a partir deste ano, a Secretaria das Culturas garante o Panorama RioArte de Dança no calendário oficial da cidade. Aposta acertada, já que é visível que a estrutura do festival amadureceu nos últimos anos, assim como, paralelamente e de modo inextrincável, o público cresceu em número e em interesse, numa política de formação de plateia que se confirma pela eficiência.
**Em cena, uma geração que dá novos contornos à dança**
Consolidando-se, definitivamente, na rota dos festivais da vanguarda da dança estrangeira, ao partilhar sua programação com importantes festivais como o holandês Springdance ou o canadense Nouvelles Danses, o Panorama trouxe para o Rio criadores que, ao lado de artistas como Jérôme Bel e Xavier le Roy—convidados dos anos anteriores—fazem parte de uma geração inquieta e ativa que vem desenhando os novos contornos da dança contemporânea. Este ano foi a vez de o público carioca entrar em contato com os trabalhos do austríaco Willi Dorner, do alemão Thomas Lehmen, do francês Boris Charmatz (que fez um duo com Dimitri Chamblas e ainda um trio), do iraniano Hooman Sharifi e do suíço Gilles Jobin.
Mas o que essa geração tem de tão relevante? Quem são esses coreógrafos que o Panorama tem escolhido nos últimos anos?
Os anos 90 viram surgir na Europa um grupo de criadores que, para grande parte da crítica Internacional, equivale, em criatividade e importância, à geração da Judson Church, berço da dança pós-moderna americana. Ainda que sem uma herança direta, esses criadores resgatam a ideia da democracia no corpo e na cena, conceito de partida que permite que cada elemento que compõe a representação possua valor equivalente, podendo ser explorado sem uma hierarquia definida. E permite que o movimento circule pelo corpo sem respeitar uma ordem estabelecida pela construção de uma técnica instalada no corpo que dança.
A ideia de representação em cena é colocada em xeque. O movimento pode ser apenas funcional, a identidade do artista, sua biografia, suas características físicas e cinéticas são sublinhadas e contrabandeadas a ponto de borrar o corpo real e o construído. A dança, enquanto linguagem, expõe seus limites em cena, outros modos de relação entre obra e público são convocados para, finalmente, colocar em xeque a própria ideia de representação.
**Parte dessas questões surge, também, em algumas obras dos criadores cariocas este ano.**
É o caso de "A paisagem daqui é outra", de Márcia Rubin. Nessa peça, simples e precisa, criadora e criatura se confundem, num jogo de identidades que se revela junto com a exposição dos descaminhos de um processo de criação. De forma diferente, já que a dança ainda guarda muitos de seus traços de identidade mesmo se borrando com outras artes, "Vaidade", da Cia. Dani Lima, mergulha de forma poética, bem-humorada e quase melancólica no olhar do outro como construção da identidade do sujeito.
"Eu e meu coreografo no 63", do jovem e competente Bruno Beltrão, cria para o espectador uma experiência quase telepática de comunicação entre as construções mentais de um jovem e a movimentação do intérprete, em simultaneidade. O Ikswalsinats (agora um trio) continua ressaltando a persona de seus intérpretes, tocando o teatro e as artes plásticas num jogo milimetricamente construído. No Inesquecível "The Moebius strip", a movimentação dos bailarinos serve de contorno para o espaço, a grande estrela da peça de Gilles Jobin.
O espectador é hipnoticamente transportado pela repetição dos deslocamentos e pelo ambiente visual ambíguo nos modos da Op-Art, numa subversão de planos e direções.
As parcerias internacionais com o British Council, a Aliança Francesa, a AFAA, o Consulado Geral da França e o Instituto Goethe permitiram ainda que o Rio assistisse, entre os convidados de fora, pela primeira vez, à Compagnie À Fleur de Peau, de Michael Bugdham e da brasileira Denise Namura, residente na França. A retrospectiva de cenas dessa dupla confirmou a maturidade e a seriedade da pesquisa realizada por eles no diálogo entre dança e teatro. Enquanto que a inglesa Rosemary Butcher presenteou a plateia do Espaço Sérgio Porto, por duas noites consecutivas, com uma demonstração do processo de criação e composição de sua próxima peça, logo depois de um interessante e bem dançado "Scan".
A presença das companhias cariocas nessa edição deixa claro que cada criador caminha em trilhas de investigação bem delineadas, produzindo uma saudável e necessária diversidade. "Joaquim Maria", de Márcia Milhazes, preciso e delicado como uma renda, traz a atmosfera de Machado de Assis numa movimentação incessante e prolixa que, aliada à pesquisa musical, sonoriza e colore a relação do casal em cena. A Esther Weitzman Cia de Dança promoveu o encontro entre três intérpretes, de uma mesma geração, partilhando referências e o prazer da dança. "Palimpsesto", de Paulo Caldas, mergulha ainda mais fundo no fluxo contínuo de impulsos que entrelaçam e suspendem no tempo o encontro amoroso. A Ana Vitória Cia de Dança dividiu com o público o evidentemente ainda embrionário "Asè", investida da coreógrafa nas qualidades de movimentação dos orixás.
Agora em rumos tão claros, resta aos criadores, como próximo desafio, a busca de um ritmo mais enxuto para os espetáculos que, muitas vezes, diluem o conteúdo numa duração extensa demais.
**"Corpo em risco" oferece novas visões sobre as obras**
As discussões da plateia-foyer, oportunidade de troca de impressões entre criadores e público iniciadas na edição do ano passado, consolidaram-se, ampliando seu espectro de ação. Os espetáculos "Suddenly. Anyway. Why all this? While I...", da Impure Company, de Hooman Sharifi, e "Nina", do Cena 11, de Florianópolis, anteciparam as discussões do seminário "Corpo em risco", encontro de pesquisadores de áreas diferentes, obra e público, que agregou pontos de vista diversos a duas noites.
Além do Cena 11, os coreógrafos-intérpretes Marta Soares e Marcelo Gabriel trouxeram para o Rio os ares da pesquisa de outros estados. "O homem de jasmim", da criadora paulista, discute de modo obsessivo o corpo que cria apesar do encarceramento e do desmantelamento da doença mental. Já o "Útero cromosserial", de Marcelo Gabriel, circula em terreno perigoso, preso num emaranhado de referências autocentradas.
**Ingressos mais baratos ajudaram no sucesso**
"Os novíssimos", tarde que reúne experimentações de coreógrafos emergentes, teve sua segunda versão, confirmando sua relevância ainda que necessite encontrar um ritmo mais ágil para o concentrado de pequenas peças. A democratização do acesso aos espetáculos através de ingressos mais baratos, a continuidade da política municipal de apoio à dança, a ampliação do raio de ação do festival na multiplicação das atividades e dos espaços de apresentação, associadas às assinaturas de curadoria de Lia Rodrigues e Roberto Pereira, contribuíram de modo definitivo para o sucesso do evento.
Nesses anos de existência e resistência, o Panorama se construiu mais de acertos do que de erros. Definiu uma linha curatorial coerente sem que isso representasse ausência de diversidade, o que demonstra que continuar é preciso. O décimo ano do Panorama confirma que a permanência é condição fundamental para a transformação.
# GRN
MATERIA _INICIO
Título: GRN
Autor: Elaine Dias
Data: 28.11.2001
Publicação: O Fluminense
Idioma: PT
Prestes a embarcar para a França, os bailarinos aproveitam para mostrar sua nova fase, com mudanças na utilização do espaço, na musicalidade e nos próprios movimentos
Convidados pela francesa Anita Mathieu para participarem do festival internacional Rencontres Coreografiques Internacionales de
Seine-Saint-Denis, na França, em maio de 2002, Rodrigo Bernardi e Bruno Beltrão, do Grupo de Rua de Niterói (GRN) já estão em clima de euforia. Eles foram selecionados junto à Companhia 2 Nova Dança, de So Paulo, após participarem da II Plataforma Brasileira para o festival, que aconteceu entre os dias 10 e 14 de outubro, no Conjunto Cultural da Caixa, no Rio de Janeiro.
Ao todo foram 17 grupos de dança contemporânea a integrarem a II Plataforma Brasileira para o Rencontres...,. selecionados pela curadora no Brasil do festival Gisele Tápias. O breakdance dos meninos de Niterói, que apresentaram a coreografia Do Popping ao Pop ou Vice-Versa, desbancou as experientes Quasar Cia. de Dança, de Goiânia, Verve Cia. de Dança, do Paraná, Carlota Portella Cia. de Dança e Staccato Companhia de Dança, ambas do Rio de Janeiro.
Para os rapazes, essa era a oportunidade que faltava para mostrarem a nova roupagem da dança de rua do GRN, que inclui um reaproveitamento do espaço, do bailarino e da cena. Mudança - Os coreógrafos Bruno e Rodrigo afirmam que o GRN atualmente passa por uma transição. "A linguagem é completamente diferente da dança de rua a que se está acostumado. Estamos trabalhando a dança de rua na fronteira da dança contemporânea.
Reaproveitamos muito mais a musicalidade, o espaço e a própria qualidade do movimento do bailarino", explica Rodrigo, dizendo que o GRN está tentando ultrapassa is barreiras da dança de rua muitas vezes limitada a festivais competitivos. De acordo com o coreografo, a intenção do grupo e seguir em frente com a proposta de fugir a algumas regras. "Es-tamos em fase de transição - do amador para o profissional, tanto em aspectos da criação artística como na parte burocrática", afirma Rodrigo, provando isso na nova coreografia, em que o grupo quebra alguns padrões estabelecidos para a dança de rua.
Estereótipos
- Essas formas são deixadas de lado, segundo Bruno e Rodrigo, quando decidem apre-isentar o ato em duo e ao utilizarem um texto de autoria de Bruno para compor uma parte da coreografia. Sem contar que há momentos da dança em que os bailarinos trabalham em silêncio. "A idéia é pensar mais em dança de rua, sem os estereótipos que The foram impostos. Ou seja, não há mais a necessidade de subir ao palco cerca de 20 bailarinos ou ter uma música com produção hollywoodiana.ou ainda, um figurino estabelecido”, contam.


