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Movimentos Plurais
Dança Brasil recebe trabalhos diversos e afirma sua vocação investigativa
Roberto Pereira
Jornal do Brasil
Como faz em todas as suas edições, quando discute a relação da dança com diferentes linguagens artísticas, o Dança Brasil, mostra promovida pelo Centro Cultural do Banco do Brasil, elegeu, neste ano, a música. Trata-se de uma escolha nada fácil, pois sua relação (quase) óbvia com a dança permite, muitas vezes, conceituações equivocadas sobre como essa ligação se dá, sobretudo ao longo da história dessas linguagens. E é encarar esse desafio, justamente, que a madura curadoria de Leonel Brum e Sílvia Soter se impôs como tarefa para se concretizar todo um evento, também maduro.
Em sua sétima edição, o Dança Brasil recebeu durante o mês de abril seis companhias. Na primeira semana de abril, a estreia do evento mostrou a direção que a mostra tomaria. A coreógrafa e bailarina Márcia Rubin, acostumada a trabalhar com atores em cena, mostrou sua nova companhia, agora composta apenas por bailarinos.
Essa escolha indica uma nova direção na pesquisa coreográfica de Márcia, escolha essa que se revelou mais no outro e estréia importante: pelo fato de ter dirigido também o texto, a preocupação com o vetor literário, e essa conversa investida e a construção de uma dança apenas com bailarinos, parece vir dialogar questões do próprio movimento. Essa pesquisa, que apareceu pela primeira vez em *Um estudo, o último Panorama Rio Arte de Dança*, resulta em *Tempo de Tea*, do *Moderno em Ocaso Elegia*. Há que se dizer que alguns elementos, como projeções de vídeos, não ajudaram a cena.
Se a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker está cansada de vídeos que aparecem projetados atrás do palco (tão comuns desde os contatos do próprio nome da companhia belga, Rosas), isso não é, de forma alguma, um problema, mas apenas alarga a discussão sobre outra montagem da dança contemporânea. Mas em todo novo projeto, Márcia tem pela frente a tarefa de burilar suas ideias e transformá-las em vocabulário mais coeso, quase que consensual no que diz respeito a neologismos.
A Cia Vatá, da cearense Valéria Pinheiro, e o Grupo de Rua de Niterói, dirigido por Bruno Beltrão, compuseram esse segundo programa, constituído mais uma vez pela estética da música. *Bagaceira*, com Valéria e Cândido Xavier, se revela um pouco fria, apesar de uma fusão boa entre música eletrônica e a dança. Sem dúvida mais afinada no que diz respeito ao que o Dança Brasil procura discutir, o trabalho é interessante e merece atenção da cena contemporânea. No entanto, há ajustes a serem feitos nos corpos que carregam informações por vezes apenas justapostas.
Mas o espetáculo consegue apontar para o ineditismo dessa hibridização de técnicas e estética que constitui toda uma cena e é carregada de uma força impactante. Já *Telesquat*, criação do coreógrafo e bailarino Bruno Beltrão, é, com certeza, o espetáculo mais instigante de toda a mostra Dança Brasil. A ideia de discutir o impacto da televisão na contemporaneidade, sobretudo no que diz respeito ao vocabulário da dança, se revela muito além disso. Na verdade, *Telesquat* invade um mundo da dança nada comum, da dança-investigação e nem sempre pacífica.
Mas são provocações interessantes pela proposta por Bruno Beltrão: a mistura do break com o reinício de pesquisa entre o coreógrafo Jérôme Bel e la, Rodrigo Pederneiras, Cia de Dança do Palácio das Artes, Cia. Brasílica, Cia Sílvia Geraldi, entre outras, define inquestionavelmente que o trabalho de Bruno se afasta daquela estética a qual o coreógrafo se propõe: a dança de rua.
A discussão sobre a ideia de legenda e o que ela representa em termos de significação para o mundo, hoje, resolve-se com exatidão no uso de recursos tecnológicos, o que faz rever de forma determinante o que se ousa óbvio que a dança contemporânea vem fazendo da tecnologia, sobretudo no Brasil, hoje. Vale ainda ressaltar, dentro do excelente grupo de bailarinos da companhia, a atuação de Eduardo Hermanson, cuja inteligência e *timing* podem ser vistos em seu corpo e em sua narração durante o espetáculo.
É possível dizer que a terceira semana do Dança Brasil foi a que mais se adequou à proposta dos curadores de investigar a relação entre música e dança. E, curiosamente, essa relação apareceu de forma diversa em três companhias que compunham a noite. O melhor deles, *D.A.M.*, assinado pelo paulista Roberto Ramos, vem a ser o resultado, segundo o programa, de uma técnica própria desenvolvida pelo coreógrafo: “desenvolvimento assimétrico”.
Entretanto, a demonstração dele, que se auto intitula autodidata, resulta numa pesquisa escolar, cujo parco vocabulário de movimentos, sempre muito simples, encontra pouco espaço para a exploração do sonoro.dançares. Felizmente, para trazer visibilidade a esse trabalho, Maria Clara Villa-Lobos, bailarina radicada na Bélgica há mais de dez anos, apresenta, em seguida, seu *Trio*. Nele, a bailarina divide a cena com Peter Jacquemyn e seu contrabaixo.
O trabalho se divide em duas fases bem elaboradas: na primeira, o corpo faz soar o instrumento; na segunda, a música dá ao corpo a chance de realizar as já inusitadas coreografias de Maria. Mas a novidade está nas relações físicas que eles estabelecem para construir, ora sutis, ora provocadoras, a relação dos três no palco. A presença de ideias díspares intensifica a cena e a força do que disso resulta. Cristina Moura fecha a mostra na quarta semana. Neste ano, a bailarina carioca revelou no seu solo **Like an Idiot**, uma intérprete forte, positiva, testemunha de um corpo aberto à emoção.
No último dia 15, *Jam (Im)Pulsos*, solo que apresenta no encerramento, se revelou mais fraco do que seu primeiro trabalho no festival. Se a ideia era transportar a noção de improvisação para o corpo, a bailarina talvez tenha se entregue, em alguns momentos, aos truques de uma improvisação enfadonha. Filha da movimentação que a música propõe e da ideia de música corporal, seu trabalho necessita de uma revisão estética no intuito de ser refrescado e atualizado. Mas mesmo assim é inegável, por meio de truques fáceis e conhecidos da dança contemporânea.


