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O coreógrafo DJ
Ana Cecília Martins
Jornal do Brasil – Caderno B
Bruno Beltrão odeia dançar. A afirmação soa um tanto contraditória, já que Bruno é tido hoje como um dos mais instigantes nomes da dança brasileira contemporânea. Aos 23 anos, ele acumula diversos convites para participar de festivais internacionais como coreógrafo do Grupo de Rua de Niterói, criado em 1996. Depois de passar alguns anos se movimentando no centro da cena, o bailarino prefere agora se concentrar na função estritamente criativa da companhia.
Munido de conceitos filosóficos e teorias da comunicação, Bruno Beltrão apresenta seu quarto e mais recente trabalho, *Telesquat*, a partir do próximo dia 10, no Dança Brasil, evento que recebe até o fim do mês, no CCBB, seis grupos com visões inéditas da comunhão entre dança e musicalidade. O respeitado festival holandês Spring Dance, que tem início marcado para o dia 17, é a escala seguinte do Niteróiense, que este ano ainda desembarca na França para o evento Le Danse Ajaccio, e na Bélgica, onde participa do encontro Klapstuk.
No currículo da trupe figuram passagens pelos festivais *Rencontres Chorégraphiques Internationales de Seine St. Denis*, na França, e *Danças na Cidade*, em Portugal. — A grande virada na minha carreira aconteceu quando comecei a pensar a dança — acredita Bruno, que chegou a cursar a faculdade de dança da UniverCidade, em Ipanema. Lá, teve o primeiro contato com os filósofos Nietzsche, Deleuze, Platão e Sócrates, adquirindo a certeza de que não queria mais movimentar o corpo, apenas suas ideias.
— Percebi que poderia levar a minha dança de rua, influenciada principalmente pelo hip hop, para fronteiras bem mais distantes — conta o coreógrafo, que se entregou à movimentação do break dance aos 14 anos. Bruno foi, de fato, além do virtuosismo e força, elementos predominantes na estética da dança de rua. Em *Do Pop ao Popping e Vice-Versa*, apresentado em 2001 no Duos de Dança do Sesc, Bruno injetou no seu trabalho novos conceitos, como o silêncio, a repetição e o improviso. — A patota do break odiou, mas ali eu percebi que era com a fusão de linguagens que eu queria trabalhar — diz ele.
No trabalho que traz ao Dança Brasil, *Telesquat* (nome de doença que se julgava existir e ser causada pela televisão na década de 50), Bruno, admirado por coreógrafos como o francês Jérôme Bel, leva a cabo essa filosofia criativa conjugando recursos como narração, legenda, trilha sonora com tons eletrônicos e vídeos. — Quis trazer a estética da TV para a dança, colocando vários mediadores entre a plateia e o palco — explica Bruno, que brinca com a cultura pop usando trilhas sonoras de filmes como *Sexto Sentido* e *Matrix*.
A tentativa de ampliar seus horizontes artísticos, expressa em trabalhos como *Eu e Meu Coreógrafo no 66*, apresentado no último Panorama RioArte de Dança, não leva Bruno a abandonar a bagagem do street dance. — Essa é uma referência impregnada nos corpos dos bailarinos com os quais trabalho. Mas busco desviciar a linguagem que eles trazem, deslocar elementos com novos conceitos — reconhece Bruno, que recebe por mês da Prefeitura de Niterói uma ajuda de custo de R$ 1 mil para manter o grupo formado por cinco bailarinos.
Hoje, depois de passar muitos anos sem estrutura, o que o obrigava a ensaiar com sua companhia em um playground de edifício com pilastras no meio, o coreógrafo já pode dispor de uma grande sala em Niterói emprestada pela prefeitura da cidade. A sobrevivência do grupo é garantida pelos diversos eventos nos quais participa como convidado. — Não gosto de dançar, nem em festas. Dançava mais jovem para conquistar meninas nas boates. Depois, entre 1996 e 1998, comecei a curtir de verdade me mexer em cena. Agora novamente acho chato.
Minha paixão é mesmo a criação — diz ele, que sempre cultivou o sonho de seguir a carreira de Fellini e Almodóvar e agora se prepara para cursar faculdade de filosofia. Foi em um texto da crítica Helena Katz que Bruno encontrou a definição perfeita para sua função:
— Sou um coreógrafo DJ, gosto mesmo é de organizar materiais. É o que sei fazer melhor — diz ele. [cica@jb.com.br](mailto:cica@jb.com.br)
*“Telesquat”* estreia no Rio dentro do Dança Brasil, no dia 10.


