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O hip hop também pode ser feito sem música

O brasileiro Bruno Beltrão analisa o vocabulário do hip hop

Anni Valtonen

Helsingin Sanomat

“Não conheço nenhum grupo de dança hip hop no Brasil cujas obras tenham um impacto social. A ideia de que o hip hop é uma forma cultural que critica a realidade é, pelo menos no meu país, uma grande bobagem. E não faltam coisas para serem ditas no Brasil”, afirma o coreógrafo Bruno Beltrão, que trouxe seu grupo para o festival URB.

Beltrão, 25, tem coragem de falar, pois, apesar de sua pouca idade, ele conhece bem a cultura da dança de rua em seu país.

“A maioria faz hip hop apenas porque é divertido. Para muitos, a virtuosidade do estilo é a única recompensa.”

Nos padrões da dança de rua brasileira, tudo se baseia em competições.
“Em cinco minutos, você apresenta ao júri todos os truques possíveis. E então: você recebe oito pontos, ou nove, ou dez. Nada mais. Isso não leva a lugar nenhum”, diz o dançarino e coreógrafo.

A jornada de Beltrão pelo mundo do hip hop começou aos 13 anos, nos clubes de Niterói, perto de sua cidade natal, o Rio de Janeiro.
“No começo, eu nem gostava de dançar, estava mais interessado nos vídeos exibidos nas boates — ou, na verdade, na interação entre Michael Jackson ou Vanilla Ice na tela e o hip hop na pista de dança”, conta Beltrão.

Na mesma época, seu amigo e atual membro do grupo, Rodrigo Bernardi, lhe falou sobre as aulas de hip hop oferecidas em Niterói. Os meninos não sabiam exatamente o que era hip hop, mas acabaram aprendendo.
“Por exemplo, em São Paulo, o hip hop já existia desde os anos 80. Mas Niterói, com 500 mil habitantes, é uma espécie de subúrbio do Rio de Janeiro, com 12 milhões de habitantes, e tudo chegou aqui mais tarde”, explica o dançarino e coreógrafo.

Quando o professor deixou a cidade, os amigos tiveram que assumir o comando.
“Aos 14 anos, ensinávamos hip hop para as crianças de Niterói. Graças a Deus, não causamos lesões permanentes em ninguém”, ri Beltrão.

Os estudos “acadêmicos” de hip hop foram um passo à frente.
“Normalmente, a gente aprende hip hop ficando na rua e observando. Um amigo faz uma coisa e você faz a sua.”

O sonho dos amigos de terem seu próprio grupo de dança se tornou realidade em 1996. O Grupo de Rua de Niterói passou a ter 16 dançarinos, e as apresentações eram feitas de acordo com o formato de cinco minutos adequado para festivais competitivos. Logo Beltrão se sentiu como um cão de circo — o desejo de fazer algo mais artístico pairava em sua mente.

Ele acabou estudando dança e balé na escola superior de dança, fez exames de filosofia e teorias da arte. Assim, ele absorveu um mundo novo, aberto ao presente.
“No hip hop, a repetição é sempre vista com desdém. Na dança contemporânea, porém, a repetição é algo essencial. Há também uma grande diferença em relação à música: no hip hop, tudo parte da batida. Comecei a me perguntar o que aconteceria se a música fosse retirada e o movimento fosse significativamente desacelerado. Como seria o vocabulário de movimentos do hip hop sem a batida associada a ele?”

Surgiu um novo hip hop, que foi recebido de braços abertos pelo público da dança contemporânea — e condenado pela cena hip hop.
“Eu rejeito os fundamentalistas do hip hop. Você é imediatamente considerado um idiota se fizer um locking com um estilo um pouco diferente ou a partir de pontos de partida diferentes”, diz Beltrão, balançando a cabeça.

“Ah, a política cultural brasileira?”, ri o dançarino e coreógrafo.
O sistema cultural estatal brasileiro é financiado pelos impostos pagos pelas empresas. A comissão que decide a quem são distribuídos os subsídios é composta por importantes gestores do mundo empresarial. A visão artística dos grandes magnatas não se estende muito além da corrente dominante ou das grandes cidades.

O grupo de dança contemporânea mais conhecido do Brasil, o brilhante Grupo Corpo, que já se apresentou na Finlândia, recebe apoio da gigante petrolífera Petrobras.
“Nosso grupo recebe 3.000 euros por ano da cidade de Niterói. Como ‘grupo de dança de rua’, estamos indo muito bem. Temos nossos próprios locais de ensaio e tudo mais! Mas se não recebêssemos convites para festivais no exterior, tudo iria por água abaixo”, admite Beltrão.

Beltrão lembra que, em seu país de 182 milhões de habitantes, há dezenas de milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza.
“Não há um único artista no Brasil que não tenha ensinado crianças pobres nas favelas. Nossa política funciona assim: se você recebe apoio social para suas atividades, você é obrigado a retribuir à sociedade. Não basta fazer arte pelo valor intrínseco da arte — isso não tem nenhum significado.”

• Grupo de Rua de Niterói, dirigido por Bruno Beltrão, From Popping to Pop or Vice-Versa, Me and My Choreographer in 63 e Too Legit to Quit, sexta e sábado, 19, no Teatro Kiasma (Mannerheiminaukio 2). Ingressos: 12.8 €.

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