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Voo pelo mundo

Bruno Beltrão é sensação unindo danças contemporânea e de rua

Adriana Pavlova

O Globo

A cena aconteceu numa varanda de frente para a Baía de Guanabara com Niterói ao fundo. De passagem pela cidade a convite do Panorama RioArte de Dança, Jerôme Bel, o enfant terrible da coreografia francesa, disparou apontando para a cidade do outro lado do horizonte: "Ali mora o meu mais novo ídolo".

Ao que parece, Bel não está sozinho. O alvo desta súbita devoção do artista acostumado a provocar polêmica nos palcos do mundo é Bruno Beltrão, o diretor do Grupo de Rua de Niterói, que, apesar dos parcos 23 anos e de apenas três temporadas de trabalho no movimento contemporâneo, vem surpreendendo a cena carioca da dança, em fase de raríssimas - e reais - revelações. Ninguém que crie coreografias por aqui sairá de 2002 com tanta coisa para contar e uma tão invejada agenda internacional. Depois de levar a sua companhia para Portugal e Paris e ter feito curadoria para a ala jovem do Panorama, Beltrão fecha o ano com passagem garantida para os dois mais quentes festivais de dança contemporânea do mundo: o Spring Dance, na Holanda, e o Klapstuck, na Bélgica.

O ano em que o coreógrafo com jeito de moleque arteiro mas desembaraço intelectual de gente muito grande virou queridinho do público da dança começou lá pelos fins de 2001. Ainda às voltas com os dilemas da dança de rua, estilo este que o fez montar um grupo já aos 13 anos, Beltrão mostrou um duo no Festival de Dança do Rio (efetivamente seu primeiro trabalho) seguido de um solo no Panorama RioArte de Dança. De cara, deixou de ser aposta e virou sensação: foi escolhido para participar do Rencontres Choregraphiques Internationales de Seine-St. Denis, em Paris, e do projeto Danças na Cidade, em Portugal. Na viagem, em junho, faturou apresentações em Toulon, na França, e, como resultado, garantiu um convite para Dance City, na Inglaterra, em 2003. É bom lembrar que a esta altura eram apenas duas coreografias no repertório da companhia e ambas misturando dança de rua com os conceitos do movimento contemporâneo.

- A idéia no início era refutar tudo que era superficial e sem conceito na dança de rua mas, ao mesmo tempo, usar como base aquele estilo que já estava grudado no corpo dos bailarinos para criar outra coisa - diz o coreógrafo, que, em "Eu e meu coreógrafo no 66", mostrou o bailarino Eduardo Hermanson (o Willow) executando coreografias típicas de estilos de dança de rua, enquanto o público escutava, com ajuda de um fone de ouvido, uma conversa surreal mas profunda entre ele e Beltrão sobre vida e filosofia, gravada num quarto de hotel.

Com uma proposta tão inusitada, rapidamente, ele virou tema das conversas nos bastidores da coreografia carioca. O discurso, baseado na proposta de fazer dança para pensar, fez eco e, em novembro, Beltrão voltou à cena no Panorama, só que dessa vez em versão dupla. Mostrou a performance "To legit to quit", com cinco bailarinos, na abertura do maior evento do gênero na cidade e foi dublê de curador, ajudando a escolher os bailarinos e coreógrafos emergentes da mostra "Os novíssimos". Foi ali também, numa oficina de Jerôme Bel, que Beltrão surpreendeu o artista francês com sua incrível capacidade de brincar com a cultura pop e, ao mesmo tempo, provocar novas idéias.

**Coreógrafo que prepara espetáculo sobre a televisão para o CCBB não teme discutir a política da dança no Rio**

Sem exageros, o encontro de Bruno Beltrão com Jerôme Bel tem todos os ingredientes de um conto de fadas coreográfico à moda contemporânea. Cair nas graças daquele que é hoje uma das mais discutidas cabeças pensantes da dança mundial é muito mais do que empurrãozinho, tanto que será o francês o responsável pela futura ida do Grupo de Rua de Niterói para a Holanda.

- Confesso que eu tinha repulsa em relação a tudo que vinha do mundo pop - diz Bruno. - Mas depois de ter visto "The show must go on", de Bel, em Lisboa, em junho, percebi que dá para discutir a dança de hoje com ironia, sem precisar criar um espetáculo pesado. Em "Too legit to quit", os bailarinos estão numa espécie de celebração, dançando hip hop e break mas, ao mesmo tempo, há uma crítica explícita ao fundamentalismo da dança de rua, no qual não há lugar para inovações.

Espetáculo não é contra os meios de comunicação

"Too legit to quit" serviu para dar mais leveza ao trabalho de Beltrão e ainda, avisa ele, servirá para fechar o ciclo em torno da dança de rua. Convidado para participar da próxima edição do Dança Brasil, no Centro Cultural Banco do Brasil, em abril, ele escolheu um tema perfeito para reflexões: a televisão.

- A estrutura base do espetáculo é o passeio constante dos corpos em três esferas de realidade: o físico, o virtual e o invisível - explica Beltrão. - A estrutura é suporte para o desenrolar de uma trama, na qual conceitos de contaminação, imitação, influência, modificação, moda, sensacionalismo, a produção da informação, a arte e o showbizz estarão presentes. Não é um manifesto contra a televisão e os meios de comunicação de massa, como um dia já pensei em fazer, mas um olhar curioso sobre esse fenômeno que diz respeito a todos nós.

Verdade seja dita, quem fica diante do sorriso largo e da fala doce de Beltrão custa a acreditar que ali existe também um talento para a polêmica. Foi ele quem, num site de dança, teve a ousadia de criticar abertamente o projeto da DeÂnima, companhia oficial do Rio de Janeiro, fundada em fins do ano passado e desde então comandada pelo carioca Roberto Oliveira ao lado do americano Richard Cragun.

- A DeÂnima caiu de pára-quedas no Rio, mas, com a reação contrária da comunidade de dança, ajudou a mostrar que Brasil não é sinônimo de oba-oba. O que o Richard e o Roberto precisam entender é que ninguém tem nada contra eles, mas sim contra a estrutura anacrônica do projeto. Só isso. E que, se se usa dinheiro público, a classe tem direito de dialogar, discutir, discordar, rever, repensar. Faz parte da democracia - diz.

Documentário mostrará a dança de rua no Brasil

Quando põe a boca no mundo, Beltrão não tem nada a perder mesmo. Até hoje, além dos cachês, ele só conseguiu ajuda financeira da Prefeitura de Niterói, cidade onde mora desde que nasceu. É na casa no bairro de São Francisco que ele mexe com seus brinquedos eletrônicos (é viciado em computador e edição de vídeos) e vai costurando o documentário sobre dança de rua no Brasil que já começou a fazer. Vida sem deslumbramento de alguém que ainda está descobrindo o sucesso.

- Só coisas boas estão chegando, porque, de certa forma, eu mostrei algo novo, com a investigação da mistura da dança de rua com uma linguagem contemporânea. Mas até quando seremos uma novidade? - deixa ele no ar.

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