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A filosofia me ajudou a dar esse passo
Dança. Bruno Beltrão, jovem coreógrafo brasileiro, sai do seu paradigma hip-hop
Marie-Christine Vernay
Le Monde
Bruno Beltrão, de passagem por Paris com sua trupe Grupo de Rua de Niterói, fala sobre seu trabalho.
Telesquat e solos
coreografias de Bruno Beltrão, teatro da Bastilha, 76, rue de la Roquette. Até 24 de abril, às 21h. Tel.: 0143574214.
Bruno Beltrão, jovem coreógrafo brasileiro de hip-hop e dança contemporânea, tornou-se o queridinho dos programadores europeus. O ano do Brasil sem dúvida acelerou o interesse por esse autor, que lança um olhar crítico e bem-humorado sobre a dança de rua que guiou seus primeiros passos como dançarino nas ruas e clubes do Rio.
Se seu dueto From popping to pop or vice versa (2001), apresentado no Rencontres chorégraphiques de Seine-Saint-Denis, muito engraçado sobre o distanciamento da linguagem hip-hop, denotava um potencial inegável, Telesquat, peça de 2008, atualmente em cartaz no Théâtre de la Bastille, pareceu mais leve, mais confusa. Prova de que as escolhas do coreógrafo não são tão anódinas. Considerado a “revelação da dança” pelo jornal O Globo, Bruno Beltrão, 26 anos, que fundou sua companhia Grupo de Rua de Niterói em 1994, não escolheu o caminho mais fácil.
De passagem por Paris, ele evoca a situação paradoxal em que se encontra.
**Desde os 13 anos, você era hip-hop, por que mudou para o contemporâneo?**
Pratiquei hip-hop por muito tempo no meu bairro. Aos 20 anos, quando estudava história da arte, dança contemporânea e filosofia na universidade do Rio, conheci companhias contemporâneas e percebi que o hip-hop era muito rígido, muito limitado. Todo artista precisa deixar sua marca em uma criação. O hip-hop não me permitia mais fazer isso. A rigidez das regras nos campeonatos, os formatos, tudo se tornava uma restrição para mim. Procurei uma abertura: era preciso reinventar tudo.
**A passagem de um meio para outro, de uma linguagem para outra, não é inocente. Como a sua foi percebida?**
O estudo da filosofia me ajudou a dar esse passo, a realizar esse ato ao mesmo tempo artístico, social e político. A mentalidade hip-hop, tanto comunitária quanto egocêntrica, me levou a procurar outros lugares, não para negar o que havia conquistado, mas para colocá-lo em outra perspectiva. Os dançarinos de rua não gostaram. Foi uma traição. O meio da dança contemporânea me aceitou e começamos a fazer turnês no exterior.
**Como você lida com a posição convencional de coreógrafo?**
Muitas vezes me pergunto se minha abordagem é honesta, talvez eu imponha demais. É preciso preservar as individualidades, fontes de criação no hip-hop, e fazer com que essas diferentes entidades se comuniquem. O que é conflituoso também pode se revelar construtivo.
**Por que você trabalha apenas com homens?**
Os imperativos da criação hoje fazem com que a energia seja mais masculina e que os dançarinos precisem ter muita técnica na linguagem do hip-hop, que continua sendo acrobática. Mas discutimos justamente esses “valores” que supostamente regem o gênero. O simples fato de colocar a questão da sexualidade masculina em discussão provoca mudanças nos comportamentos.
**Como o trabalho da sua companhia é considerado no Brasil?**
Desde 1990, os coreógrafos começaram a se organizar, a criar grupos de reflexão. Mas o que é importante para os criadores não é importante para os políticos. Por exemplo, o fato de fazermos turnês no exterior não lhes interessa. Eles preferem que façamos belos espetáculos para o seu eleitorado. →


