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A incorporação da turbulência

A trupe brasileira utiliza a dança hip-hop para retratar uma identidade coletiva

Apollinaire Scherr

Financial Times

Grupo de Rua significa “grupo de rua” em português, mas não há rua em Inoah — a mais recente incursão sinuosa no hip-hop desta trupe brasileira formada exclusivamente por homens e aclamada internacionalmente. Em vez disso, apenas um galpão, com uma estreita faixa de janelas no alto, de onde vislumbramos um fragmento de montanha, um emaranhado de fios telefônicos e o amarelo desbotado do amanhecer de inverno que se transforma em um vasto céu azul, e então em uma noite tempestuosa. 


Os 10 homens não estão simplesmente ocupando um galpão, eles estão armazenados: fora de circulação e mantidos na escuridão, assim como nós durante os primeiros intermináveis 20 minutos da dança de uma hora de duração. Com apenas as canelas, antebraços e rostos nus para iluminar a penumbra, é difícil dizer onde um dançarino começa e o outro termina. Um movimento rápido das mãos ou um súbito deslocamento pelo palco é seguido por uma inércia glacial, enlouquecedora e fascinante por ser tão inexplicável. 


Quando qualquer força incipiente aprisionada dentro desses homens congelados se liberta, eles se movem como os elementos ao seu redor — a chuva torrencial, pássaros distantes, ruído industrial e o sopro de ar passando por uma cidade serrana como Inoah (uma cidade real perto do Rio) que o design de som de Felipe Storino evocou. A linguagem do coreógrafo fundador da Rua, Bruno Beltrão, é inconfundivelmente hip-hop: pernas contorcidas, silhuetas de quebra-cabeça, passos rápidos e giros de costas e de cabeça. Mas os dançarinos tratam o espaço como um arbusto seco rolando por uma planície desértica, não como uma criança confinada a um pedaço sujo de concreto. Os homens se chocam como pedras montanha abaixo até chegarem ao fundo e pararem abruptamente. Eles saltam do chão como uma bola de basquete driblada por um gigante. Para os movimentos mais acrobáticos, raramente usam aquele sinal de excepcionalismo humano, as mãos. 


O coreógrafo de 40 anos disse recentemente que esperava que os dançarinos. representassem “a turbulência social em que vivemos”. Em Inoah, eles são essa turbulência, naturalizada. O drama ameaçador do humano e da máquina — o perigo de ser reduzido a engrenagem ou detrito — sempre esteve à espreita por trás da arrogância do hip-hop. Beltrão traz esse subtexto à tona. Os internos de Inoah não afirmam domínio. Eles não se autopromovem. Na verdade, eles não possuem um eu no sentido usual. Uma identidade coletiva sussurrada substituiu a autoafirmação arrogante de movimentos característicos. Sempre que um grupo de dançarinos preenche o palco, uma corrente elétrica os percorre, unindo-os. 


Mais tarde, o engenhoso designer de iluminação Renato Machado ilumina os homens pela frente e por trás, de modo que eles parecem se imprimir no espaço negativo. Eles se assemelham a figuras das pinturas de Jacob Lawrence, com rostos não revelados e contornos nítidos contra uma parede sólida de cor: um povo. ★★★★☆ ‘Inoah’ está em turnê por Minneapolis esta semana e pela Holanda neste inverno

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