top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Youtube

AGRADECIMENTOS

NOTÍCIAS

TRAJETÓRIA

BLOG

+55 21 998787706

 2026 - GRUPODERUA

Engenho do Mato, Niterói - Rio de Janeiro

preto.png

Add a Title

Add paragraph text. Click “Edit Text” to update the font, size and more. To change and reuse text themes, go to Site Styles.

Add a Title

ant
Logomarca - GRUPODERUA
prox

Danca contemporanea real

Nayse Lopez investigou o que realmente importa no mais fervilhante caldeirão cultural da América do Sul.


Da caipirinha ao carnaval, das mulatas à música brasileira, tudo o que o mundo associa ao Brasil é resultado de uma mistura. Mas, para além do clichê tropical-exótico-de-pessoas-dançando-ao-som-de-ritmos-primitivos que atrai milhões de turistas todos os anos, existe um fato muito concreto: se você nasce brasileiro, é, pura e simplesmente, resultado de uma mistura.


Antropólogos e criminosos internacionais já perceberam isso como um ativo valioso. O passaporte brasileiro sempre esteve entre os mais procurados no mercado negro. Não porque sejamos pentacampeões mundiais de futebol, mas porque qualquer pessoa, de qualquer origem, com quaisquer características físicas ou faciais, pode se passar por brasileira.


Essa é a boa notícia.


No entanto, a dança contemporânea brasileira — assim como qualquer outra forma de arte contemporânea no Brasil — vem lutando com essa imagem ambígua, tanto internacional quanto doméstica, de uma herança cultural híbrida, cruzada e miscigenada.


Percorremos um longo caminho desde a época em que as tentativas de criar balés “brasileiros” significavam colocar falsos indígenas e escravos negros ao redor de bailarinas etéreas. Esse uso obrigatório de símbolos das heranças indígena e africana para dar “sabor brasileiro” às produções tornou-se não apenas desnecessário — se é que algum dia foi necessário — mas também sem sentido.


Uma nova e revigorante geração de coreógrafos brasileiros continua adotando uma abordagem de fusão na dança, mas usando uma nova lista de ingredientes — não menos brasileira por isso.


Para Bruno Beltrão, o novo nome em ascensão da dança brasileira, fusão significa dança contemporânea e hip hop. O resultado pode ser visto em diversos festivais europeus este ano, incluindo o Springdance neste mês e o Klapstuk em outubro.


Aos 23 anos, Bruno detesta ser tratado como “a nova sensação”:


“Vou fazer meu primeiro espetáculo de longa duração este ano. Como podem me chamar de novidade? Não deveria mostrar mais trabalhos antes?”


diz ele com impressionante simplicidade, cercado pelos seis b-boys de sua companhia, Grupo de Rua de Niterói.


Num estúdio de ensaio com uma vista impressionante para a cidade vizinha do Rio de Janeiro, ele trabalha em Telesquat, que estreia este mês no festival Dança Brasil, no Rio.


A peça é uma investigação multimídia sobre a relação das pessoas com a televisão.


“Eu tinha uma citação de um filósofo brasileiro que dizia que a TV pode nos oferecer o mundo inteiro de uma só vez, mas de uma maneira em que o mundo real desaparece. Então acabamos não sabendo nada, embora tenhamos a ilusão de ter sido informados sobre tudo”,


explica.


“E como minha geração é totalmente viciada em TV, imaginei se conseguiria criar um espetáculo que fizesse isso com a dança: dar às pessoas a impressão irreal de que foram informadas sobre dança, enquanto na verdade tudo vai ficando cada vez mais confuso, ao adicionar camadas entre os dançarinos e o público.”


Essas camadas aparecem na forma de falsas legendas, uso tridimensional de telas de vídeo, efeitos sonoros especiais e um narrador no meio da plateia explicando o que está acontecendo no palco.


Os dançarinos não utilizam nenhuma outra técnica além do breakdance mais hardcore.


“Hoje me sinto totalmente confortável com isso como vocabulário. A fusão acontece quando levo meu pensamento de dança contemporânea para os corpos deles”,


diz Bruno.


Mas nem sempre foi assim.


Bruno foi um prodígio do breakdance ainda criança, vencendo competições e participando de programas de televisão nas tardes de domingo durante os anos 1980. Aos 15 anos, já tinha uma companhia com dez dançarinos viajando por todo o Brasil e até pela Europa participando de campeonatos de break.


Há apenas quatro anos, quando foi convidado a criar algo para um pequeno festival de dança contemporânea no Rio, Bruno surgiu com uma surpreendente peça de 15 minutos sem música.


Retirado de seu contexto espetaculoso habitual, o breakdance parecia estranho e poderoso.


“Meu passado no breakdance virou um peso enorme… Eu sentia que precisava arrancá-lo do seu ambiente original para fazê-lo caber dentro da dança contemporânea”,


lembra.


Ele então entrou para uma faculdade de dança contemporânea e criou o solo Me and My Choreographer N. 63 para o Panorama RioArte Festival de 2001.


Até então, Bruno desfrutava de forte apoio da comunidade da dança, embora sua aparência adolescente levasse as pessoas a adotarem uma postura um pouco paternalista em relação a ele.


Na noite da estreia, o pessoal da dança contemporânea levou um grande choque.


O solo — uma das peças que ele apresentaria na Europa — nasceu de uma conversa que Bruno gravou secretamente entre ele e seu dançarino mais impressionante, Willow.


Normalmente calado, Willow é capaz de despejar uma torrente de reflexões sobre vida, morte, doença mental, drogas, amor e família em sua maneira inconfundível e cheia de gírias de falar.


Ao som da própria voz — ouvida pelo público através de fones individuais — Willow dança uma técnica híbrida de break sobre um palco simples.


“Percebi que ele dança como fala e fala como pensa — e vice-versa — de uma maneira muito visível. Eu queria falar sobre esse corpo coerente e único”,


aponta Bruno.


“A partir daquele momento ficou claro para mim que eu podia usar a abordagem da dança contemporânea sem abandonar os elementos do breakdance e do hip hop que eram verdadeiros para mim e para minha história. Foi por isso que o espetáculo seguinte voltou para uma sensação mais de rua”,


explica.


A peça seguinte é Too Legit To Quit, título clássico de uma música de hip hop, ambientada em uma tradicional roda de break na calçada.


A diferença está nas etiquetas.


Cada dançarino mostra seu estilo específico, os outros o nomeiam de acordo, mas aos poucos eles desconroem a técnica: do estilo para frases, das frases para palavras e das palavras para letras do alfabeto do breakdance.


“As pessoas viram aquilo e disseram que eu estava voltando ao break ‘puro’. Mas que diabos é isso? Eu jamais conseguiria fazer um espetáculo de breakdance assim sem antes me afastar do break por um tempo e misturá-lo com conceitos da dança contemporânea”,


afirma.


Além do lado divertido e virtuoso — que enlouquece o público — o trabalho de Bruno também demonstrou impacto sobre espectadores mais exigentes.


O coreógrafo francês Jérôme Bel, que irá curar o festival Klapstuk em Leuven ao lado de Alain Platel, viu o trabalho de Bruno durante uma turnê da companhia.


“Grupo de Rua de Niterói foi uma descoberta maravilhosa. Bruno organizou uma apresentação para mim e para os atores de The Show Must Go On… Ficamos todos obcecados pelas peças. Todos nós ficamos entusiasmados!”


Tão entusiasmado que Bel convidou a companhia para o Klapstuk.


“Ele me mostrou três peças em ordem cronológica e foi fascinante ver como um artista se torna cada vez mais preciso na articulação do seu discurso, como seu projeto artístico vai ficando cada vez mais claro através das diferentes obras”,


diz Jérôme.


Bruno também participou do Panorama Dialogue no Springdance, uma colaboração entre os dois festivais.


Depois veio o convite para o festival daquele mês.


“Meu profundo interesse pelo trabalho de Beltrão vem do uso do hip hop, que para mim hoje é a verdadeira ‘dança contemporânea’, misturada com uma forte postura crítica. Acho esse coquetel extremamente relevante. Parece que ele traz o hip hop de volta ao realismo, em vez daquele hip hop publicitário da MTV. Mal posso esperar para ver sua nova peça este mês no Rio”,


entusiasma-se Jérôme.


Então existe uma nova forma de fusão acontecendo na dança brasileira?


Sim — mas a fusão tradicional ainda permanece.


Alguns artistas continuam utilizando combinações de raízes culturais nordestinas, dança dramática e cultura afro-brasileira enquanto buscam novas estratégias.


A Companhia Vatá, de Fortaleza, Ceará, foi criada por uma sapateadora e mistura antigas percussões corporais brasileiras com uma abordagem contemporânea.


“Quando as pessoas assistem, reconhecem o Brasil ali, não a Broadway”,


garante a coreógrafa Valéria Pinheiro.


O grupo surgiu no universo do sapateado, mas logo começou a fundir dança contemporânea com tradições brasileiras. Eles participaram das atrações brasileiras da Feira de Hannover, na Alemanha, em 2000.


“Nós não fazemos trabalho para turistas”,


diz Valéria.


“Nossa pesquisa sobre o corpo como instrumento percussivo está profundamente enraizada no passado cultural da nossa região.”


Outra companhia que continua cruzando dança contemporânea com tradições brasileiras mais amplas é o Grupo Seráquê?, que se apresenta em Berlim este mês sob direção do ex-integrante do Grupo Corpo, Rui Moreira.


Rui parte de sua herança africana para discutir a influência negra na cultura popular brasileira.

​

preto.png
preto.png

crítica

Do hip hop a Heidegger

preto.png

matéria

Dez anos de dança

preto.png

crítica

A incorporação da turbulência

bottom of page