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Deslocamento como um novo Horizonte
Nayse Lopes
Programa Kunsten Festival des Arts
A nova peça de Bruno Beltrão,H3, toma um ousado próximo passo às questões levantadas
Depois de um pesado, complexo set up criado em H2, uma linha fina no horizonte. Depois de lentamente encontrar uma maneira de fazer o normalmente estacionário vocabulário do hip hop se deslocar, um fluxo contínuo de corpos. Existem muitas formas de ver a nova peça de Bruno Beltrão e de seu Grupo de Rua como uma seqüência de H2. Não só a escolha do título pelo artista indica isso, mas um olhar mais atento para o material do espetáculo abre um novo caminho de questões envolvendo cenas e gestos do trabalho anterior. Bruno está definitivamente encontrando uma abordagem coreográfica mais complexa e retomando algumas novas leituras e influências na composição.
Na primeira semana de abril, em uma bela tarde ensolarada em sua cidade natal – a meia hora de carro do Rio de Janeiro - Bruno e os seus bailarinos passavam as cenas e tentavam descobrir a edição final que estreiaria em 12 maio no Kunsten Festival des Arts 08. A sala tem uma linha horizontal que a rodeia e um conjunto de janelas que filtram diferentes quadrados sobre o chão. "Estou pensando em ter uma atmosfera muito semelhante no palco", diz ele, "apenas isso e o som. Penso que é bom para aquilo que estamos
Em primeiro lugar, o fluxo. O final de H2 tinha uma cena em que todos os bailarinos testavam os limites do espaço do palco, mas em todos os momentos de H2 havia a idéia de um espaço pré-concebido, de um ‘dentro e fora’ de cena. Desta vez há também um dentro e um fora, mas os corpos fluem através das fronteiras do espaço de performance, de uma maneira muito menos formal, por vezes quase como que se flutuando e seguindo ralo abaixo. Em outros momentos um duo ou um trio se dissolvem e os dançarinos apenas passam. Estas trajetórias no palco constroem, depois de um certo tempo, um complexo mapa de caminhos. Para o hip hop, um vocabulário extremamente territorial, é uma abordagem subversiva sobre o espaço.
O chão em si é em H3 quase um dançarino – são 9 homens no palco. A peça tem um uso mais direto de quedas e do peso e partiu da investigação que Bruno fez com a companhia naquela ocasião, para entender como hip hop e dança contemporânea poderão relacionar-se de uma forma nova com o chão da dança. O resultado é vibrante e inesperado, com os bailarinos tendo muito mais controle dos seus movimentos, mas mantendo a explosão. E alguns duos têm surpreendentes mas compreensíveis sombras de pernas e torsos da capoeira. É nada mais que natural quando se rastreia a influência da capoeira em todas as danças urbanas no Brasil.
Em termos de imagens de dança, Bruno decidiu explorar, ou melhor dito, explodir em pedaços a assinatura de alguns movimentos do hip hop. Pegue a "zulu spin" como um exemplo. O movimento rolando no chão é considerado o primeiro momento do hip hop no qual um dançarino foi rente ao solo para dançar. Bruno se debruça nele para estabelecer um novo grupo de linhas. A frase “correr para trás”, um movimento heterodoxo para uma dança historicamente frontal, volta de muitas
O Hip hop é principalmente uma dança individual muito dirigida ao virtuosismo, onde, como no balé, cada bailarino tem de lidar com uma série de complexas atividades neuro-motoras em segundos. Isso levou a um vocabulário onde o corpo do outro é, no seu melhor e como no balé, um apoio. Em H3, Bruno investigou a possibilidade de um contato real, um verdadeiro pas de deux (para fins de metáfora) no hip hop. O resultado nem sempre é perfeito e Bruno não está interessado em encontrar uma solução. H3 levanta uma nova hipótese: como pode ser o contato entre os corpos formados em hip hop? Como fazer estes homens sentirem-se mutuamente e contarem com o corpo do outro para dançar? Eles conseguem aceitar que os corpos podem e devem modificar-se uns aos outros?
Existe um tabu do toque no hip hop. Existe um clichê do contato na dança contemporânea. Entre os dois podemos nós, enquanto platéia, identificarmos e nos relacionarmos com contato criado no palco pelos rapazes dançando H3? O que estamos procurando? Pode o contato, em paradoxo, ser um divisor? Em H2, Bruno fez de um provocante beijo entre homens um marco político e artístico no hip hop. Naquele caso o encontro de dois corpos pretendia quebrar barreiras culturais. Desta vez, no âmbito da coreografia, Bruno está propondo que o hip hop utilize o contato como uma ferramenta de forma diferente da que o contato-improvisação ou outras técnicas de dança fizeram antes. Beltrão não oferece
soluções definitivas para isso.
H3 é, tal como as outras peças de Bruno, uma experiência especial em dança. Uma mistura de referências, um espaço onde a arte contemporânea encontra as danças urbanas de forma que nenhum deles se torna estranho ao outro. Embora seja um dos mais importantes artistas jovens do Brasil, Bruno e seu Grupo
Antes da estréia, Bruno discutia com os meninos o timing de alguns trios, falava sobre uma cena de gru po que estava parada. Ele foi honesto comigo sobre ter dificuldades para construir a trilha sonora. Os dançarinos, depois de outra tarde de trabalho físico muito duro, sentaram para me contar sobre as dificuldades da peça. Enquanto Bruno e seu assistente Ugo discutiam a edição do material, alguns bailarinos se arrumavam e uma banda de música começava a se formar no canto. O espaço de ensaio que eles alugavam durante o dia tornava-se um salão de baile à noite.
À medida que deixamos o espaço, imagino a festa e os casais dançando aqui mais tarde. Penso sobre os fluxos de corpos e a estrutura que Bruno está propondo nesta peça e enquanto me conduzo de volta ao longo da enorme


