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Um novo giro no hip-hop

O brasileiro Bruno Beltrão e seu Grupo de Rua renovam o estilo ao reduzi-lo à sua essência crua e irregular.

Tadra Breitberg

Los Angeles Times

Vi apenas um dançarino de cabeça para baixo girando sobre a cabeça — apenas um — na apresentação de sábado, em Irvine, de “H3”, a nova obra da companhia experimental brasileira de hip-hop Grupo de Rua, em sua primeira turnê pelos Estados Unidos. O giro de cabeça, no hip-hop, é o que a pirueta é para o balé — pode ser ao mesmo tempo impressionante e estranho. O que o tornou especial em “H3” foi justamente o fato de ser um dos poucos momentos de explosão. Trata-se de uma obra abstrata, porém sugestiva, que reorganiza elementos do hip-hop e nossas expectativas sobre suas possibilidades. O coreógrafo e diretor artístico Bruno Beltrão fundou o Grupo de Rua — “street group”, em português — quando tinha apenas 15 anos. Cinco anos depois, após ampliar sua formação em dança, iniciou uma missão de desconstrução do hip-hop, desmontando seu exibicionismo virtuoso e sua atitude machista. Levar qualquer dança vernacular para o palco exige um processo de repensar e reapresentar, seja o tango argentino ou a dança folclórica ucraniana. Mas o que Beltrão concebeu, como demonstrado no Irvine Barclay Theatre, oferece um prisma refrescante e desafiador para observar essa forma em evolução. Ele não é o único a expandir os limites da dança e da cultura hip-hop. Mas, ao retirar tanto, ele amplia as possibilidades performativas e abre espaço para interpretações diversas. Em “H3”, Beltrão reduz tudo ao essencial e se mostra um editor rigoroso. Desaparecem os chapéus, as calças largas e os tênis. O desenho de luz de Renato Machado deixa partes do palco na penumbra, como os intervalos escuros entre postes de rua. Grande parte da obra é acompanhada apenas pelo ranger dos tênis no chão ou por uma trilha percussiva inquietante, criada por Lucas Marcier e Rodrigo Marçal. O primeiro terço apresenta uma atitude marcadamente masculina. Caminhando para trás, cabeças e ombros são puxados para arqueamentos antinaturais, como se uma força invisível os manipulasse. Vestindo camisetas de cores diferentes, os bailarinos assumem uma postura contida, quase silenciosa, mas sempre pronta para explosões musculares. A velocidade torna-se um elemento essencial — os homens giram rente ao chão, cruzando o palco de quatro, como ervas daninhas enlouquecidas levadas pelo vento. Corpos tremem em espasmos estranhos ou lembram marionetes quebradas, cujos fios são puxados por um manipulador insano. Ao final, a energia atinge o ápice: os nove bailarinos se chocam uns contra os outros ou correm de costas pelo palco. Beltrão desmonta as preparações complexas, os movimentos acrobáticos, as isolações corporais e as poses do hip-hop e recompõe esses fragmentos para criar um dançarino sem pose, sem bravata. O público costuma desejar feitos físicos espetaculares, como mortais invertidos, mas aqui até o giro de cabeça pode se tornar rotineiro. Ao eliminar o esperado, Beltrão amplia as possibilidades. Nunca sabemos exatamente o que virá a seguir. “H3” provoca inquietação — sentimos estar à beira de algo ameaçador — e isso mantém não apenas os olhos, mas também o pensamento, em estado de alerta.

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