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O hip hop depois do hip hop

O coreógrafo brasileiro Bruno Beltrão apresenta hoje, com seu Grupo da Rua, o espetáculo H3

*Laura Falcoff*

La Nación

Bruno Beltrão é coreógrafo. Também foi bailarino, mas apenas até os 18 anos. Agora tem 32. A crítica alguma vez disse de sua proposta que é como o hip-hop depois do hip-hop. Dele disseram que é o senhor que desconstrói o hip-hop. Venerado (e também criticado) é o que apresentou seus trabalhos nos cenários mais importantes do mundo. A célebre Pina Bausch o recebeu com os braços abertos, enquanto a cena da dança contemporânea o converteu em uma de suas figuras. Há 16 anos, fundou a companhia Grupo da Rua, com a qual a dança de rua alcançou outra poética. No grupo, com sede em Niterói, trabalham rapazes de todo o Brasil que poderiam ser os b-boy de qualquer videoclipe de Christina Aguilera (como ele mesmo ironiza), mas não. É que assim como ama o hip-hop, o critica.


Bruno Beltrão é quem hoje, pela única vez, apresentará no Teatro San Martín H3, sua sexta coreografia. São 50 minutos dos quais, mais da metade, transcorrem sem música. A vez que H3 se ofereceu em Nova York, The New York Times disse: "Se há um paraíso para os b-boys, deve ser algo como o de Bruno Beltrão em H3". A revista internacional Balletanz sustentou: "Pode ser um marco na história da dança de rua ou um sinal da aparição de algo totalmente novo; qualquer que seja o caso, vale a pena não perdê-lo".


H3 forma parte da programação do ciclo Panorama Sur que se inicia hoje (ver quadro). Recém-chegado e enquanto seus b-boy dão duro ao Facebook, repassa seu percurso. De adolescente olhava o baile como algo longínquo. "Agora é distinto porque o hip-hop tem como um protocolo, mas de jovenzinho observava toda essa gente dançando na rua e me parecia como algo enredado, alheio", explica a horas de pisar pela segunda vez Buenos Aires. Claro que, com o tempo, começou a ir às discotecas com um objetivo claro: "Conhecer meninas".


- Funcionou?


-Sim, claro que funcionou.

E ri com um sorriso franco, que, ao parecer, o pinta de corpo inteiro. Vem de uma família de classe média. Nem seus amigos nem ele sabiam dançar, mas foram à disco e, talvez sem saberlo, foi aprendendo seu próprio protocolo. Conheceu um grupo, Power Dance, cujos integrantes se preparavam toda a semana para ir dançar à discoteca. ¿Febre de sábado à noite versão brasileira? Digamos que sim. Então, decidiu que o seu era dançar. Inscreveu-se na Faculdade de Dança de São Paulo. São quatro anos de estudo. Largou aos três. É que à medida que passava o tempo se dava conta de que lhe interessava muito mais a parte teórica da carreira que a prática (toda uma estranheza). Simultaneamente, descobriu que lhe produzia mais prazer coreografar que dançar (segunda estranheza). Enquanto isso lhe rondava pela cabeça, trabalhava em um espetáculo de novo circo. Ia tudo bem, tampouco. "Um dia decidi que não ia mais dançar no espetáculo -conta-. Desde aquela vez, nunca mais o fiz."


- Que idade tinhas?


-Dezoito. Nesse processo interno, uma vez viu uma performance de Jérôme Bel, que lhe serviu para entender que havia outras possíveis leituras sobre o mundo pop. Em outro momento, um professor lhe disse algo que agora recorda como se estivesse acontecendo: "Não faz falta dançar para fazer uma coreografia". Isso lhe pegou. Bruno reconhece que para marcar movimentos se move muito pouco. "Sento-me e falo. Proponho coisas, mas não as mostro. Aos bailarinos muito não lhes gusta, prefeririam que alguém lhes mostre o que têm que fazer; eu decidi tomar outro rumo -reflete-. Em outros espetáculos, por exemplo, investiguei a espacialidade. Agora, em meu novo espetáculo, decidi encarar o tema da autoria. Na atualidade, é tudo muito intrincado, são tempos de muitas influências nos quais é complexo definir onde e como se gera um fato criativo. Por isso, estou metido com o tema da autoria e comecei a levar isso ao grupo."


Cópia certificada


Nesse trem, deixou de "criar" para "copiar". Claro, tudo absolutamente entre aspas para não entrar em discussões sobre os (¿supostos?) limites entre a criação e a cópia. No início do processo, pediu a seus bailarinos que buscassem vídeos na Internet para trabalhá-los. A partir dessas pequenas unidades, busca o gesto por definir.

Voltemos à faculdade. "O primordial que aprendi, e que me serve até o dia de hoje, é que a cena do hip-hop está montada sobre a lógica do entretenimento com música muito forte e muito desdobramento físico, que aponta ao impacto; esse não era meu caminho. A faculdade me possibilitou refletir sobre aquilo e vê-lo desde outra perspectiva. O resto de tudo isso não me interessa. E não é que queira levantar alguma bandeira do que faço porque não é o meu. A mais, sempre fui crítico para essa tendência coreográfica do hip-hop que considero que está morta porque sempre repete uma fórmula."


Ele diz não levantar bandeiras, mas quando seu grupo se apresentou em Madri, a informação de imprensa dizia sobre H2, seu trabalho anterior: "[em uma cena] os 12 rapazes, cujas idades andarão entre os 18 e 21 anos, se dirigem ao centro do cenário, olham ao público e, por pares, se beijam ardentemente. Um beijo prolongado, apaixonado, muito belo". Conclui ao longo (e belo) parágrafo, assim: "Sinceramente, creio que ali, naquele cenário, se fez mais contra a homofobia que em milhares de charlas, encontros e manifestações sobre o assunto". Lembro-lhe o texto. Rápido, aponta: "Certo, essa bandeira sim a levanto! Naquele momento, era importante tomar essa postura. Era uma mensagem para o universo do hip-hop, que é uma dança muito machista cheia de preconceitos".


- Como trabalhaste essa cena com bailarinos que manejam o código da rua?


-Para alguns foi um pouco choqueante. Não acreditavam que fosse necessário, como tampouco consideravam necessário dançar sem música. Mas eu sempre soube que não queria uma dança espetacular, creio que a gente já está cansada disso.


Na busca de Bruno Beltrão e de sua companhia, coletivo que guarda várias semelhanças com o do grupo Km 29, do coreógrafo local Juan Onofri Barbato, nunca tentaram convocar bailarinos com formação em dança contemporânea. "É um ponto importante - reconhece -, mas eu quero trabalhar com gente que domine o hip-hop. Se outras companhias têm como base o clássico, eu aposto a um hip-hop trabalhado desde uma forma do sensível."

¿O resultado? H3, título que não significa nada (embora, talvez, sim).


Beltrão costuma se apresentar nos encontros cênicos mais importantes do mundo. Em meio a essa agenda complicada, a grande coreógrafa alemã Pina Bausch o convidou duas vezes ao festival que organizava em Wuppertal. "Eu pensava que nem a ia ver. A mais, que ia ser um encontro algo formal. No entanto, mal chegamos, toda sua companhia nos recebeu de uma maneira incrível. Até cheguei a pensar que era algo forçado - ri-se-, mas não. En cima, quando terminamos de fazer a primeira função, nos levaram a jantar a um restaurante que havia sido uma fábrica de sabão. Um lugar hermoso. Quando chegamos, vejo a mesma Pina Bausch, que me faz sinais para que me sente em sua mesa. Eu não dava crédito. Para colmo, me ubicou entre ela e Mikhail Baryshnikov, que também havia visto a função. ¡Me la pasei olhando para um lado, para o outro, sem crerlo! Pina para mim era... ¡¡¡uffff!!!"


- O que te disse?


-"Estou encantada que estejas aqui. Seu espetáculo é uma das obras mais incríveis que vi, mas não quero dizer muitas mais coisas porque estou muito comovida. Só isso tenho para te dizer." Até hoje, até agora mesmo, Bruno parece não crer aquelas palavras. Tanto que as reproduz como se fosse ela.

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