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O que seria hoje a dança urbana?
Bruno Beltrão e Grupo de Rua apresentam **H3** no Panorama Sur
Carolina Prieto
“Mais do que definições, me interessam as perguntas e promover o encontro de coisas que parecem distantes”, afirma o celebrado coreógrafo brasileiro, que funde o gênero com elementos alheios.
Quando Bruno Beltrão estreou em Buenos Aires em 2005, no Festival Internacional de Buenos Aires, não passou despercebido. Com apenas 25 anos apresentou **Telesquat**, uma proposta que articulava a dança de rua com um dispositivo de telas, vozes e tecnologia, gerando um bombardeio de luzes, sons e movimentos, como um zapping caótico.
Esse treinamento potente reforçava o impacto das imagens e da televisão na subjetividade. Sete anos depois está de volta com **H3**, seu último espetáculo, ovacionado em festivais de dança e teatro da Europa e dos Estados Unidos, onde surpreendeu a crítica.
A ocasião para conhecer o novo trabalho do coreógrafo brasileiro e de seu grupo de dez jovens bailarinos é hoje às 21h30 na sala Martín Coronado do Teatro San Martín (Corrientes 1530), função que faz parte do **Panorama Sur**, a nova oferta oficial do festival. Durante um mês o evento reúne obras, seminários, diálogos com dramaturgos e um seminário para dramaturgos.
Segundo se anuncia, o Grupo de Rua apresentará um vendaval de potência e velocidade, misturando dança urbana com elementos de outras disciplinas e derrubando estereótipos do gênero. Essa amplitude caracteriza Beltrão: a liberdade para mergulhar em terrenos inexplorados e se animar a fundir um gênero tão codificado como a dança de rua com elementos estranhos. Ele mesmo tem uma visão crítica do *street dancer*: “Detesto essa estética fechada e hermética do hip-hop. O diálogo entre um bailarino e outro parece um pingue-pongue em que ninguém escuta o outro. E essa visão de inspetor, como observador externo dizendo ‘eu faço justamente o contrário’”, conta o artista. Com sentido crítico das figuras fechadas da dança contemporânea, Beltrão, itinerante desde os 20 anos, prefere a flexibilidade.
Após o espetáculo recém-chegado ao país, Beltrão conversou com o *Página.12* sobre sua concepção da obra e sobre o trabalho que apresentará ao público local.
Com *H2* viramos hacìa algo mucho màs fisico, màs anclado en el gesto, en el vocabulario del movimiento. En los dos espectàculos me interesò dislocar algunos elementos muy codificados del hip-hop, por ejemplo el top-rock, esas danzas introductorias, de pie, previas a los momentos de virtuosismo y destreza. Y llevar esos elementos hacia otros lados, descentralizarlos".
**Por que *H2* e *H3*? A que se referem esses títulos?**
*H2* é uma expressão típica do hip-hop, aludindo às duas fases do termo.
*H3* se chama assim porque é a sequência do primeiro número, mas não tem outra definição.E gostaria que fosse entendido como: um espetáculo muito abstrato, mas com propósitos concretos como aprofundar o trabalho com o espaço e romper a frontalidade. Outro objetivo é a busca do contato físico, algo que na dança urbana não acontece mesmo que as pessoas dancem no mesmo lugar. Os primeiros quinze minutos da obra são duos distintos e aparece essa novidade: o contato, o encontro.
**“H3 é um espetáculo muito abstrato, mas com propósitos concretos como aprofundar o trabalho com o espaço.”**
**Você se formou em dança de rua e também em dança contemporânea. *H3* mistura ambas?**
— É muito difícil definir os gêneros. Não saberia como fazê-lo, e não gosto disso. O que seria hoje a dança urbana? Que expressões populares ficam de fora?
É impossível saber, ainda mais se pensamos em dança contemporânea.
Mais que as definições, me interessam as perguntas e promover o encontro de coisas que parecem distantes.
Unir a dança com algo que me surpreende num jornal ou com algo da filosofia, ou com elementos de outras disciplinas físicas. Acredito que com **H3** nos aproximamos de algo parecido a um sistema orgânico como a vida, que vai mudando. Me atrai que o espectador não possa prever o que vem depois.
**Como descreve o processo de trabalhar com uma dança nascida nas ruas e levá-la a um palco?**
Há coisas que se ganham e outras que se perdem. É inevitável. Ganhamos porque, ao estar em um palco, entramos em diálogo com uma herança cênica, com aquilo que cada um viu ou viveu em dança ou teatro. O perigo é perder espontaneidade: a vivência se cristaliza num espetáculo escrito, matando a vitalidade do gesto. Quando a dança viva se oferece pura, perde vida. Quanto às coisas que se ganham: em **H3** usamos recursos pensados especialmente para o palco, como os saltos que acontecem em momentos únicos, como quando os meninos sobem pelas cordas. E a cena fica vazia; o único que temos são os corpos e a luz. E desses vazios, o que liga uma cena à outra é uma linha fina que aponta para que o corpo atravesse o espaço, como se os movimentos se projetassem em direções distintas.
**Como foi o processo de criação da obra?**
— Foram cruciais a improvisação e o material trazido pelos bailarinos Alex Pognano, Bárbara Lima, Bruno Duarte, Eduardo Hermanson, Joseph Antonio, Luiz Goulcella, Mickael Ramos, Ranielson Araújo, Thiago Lacerda e Thiago Almeida.
Nos dias em que abríamos o espetáculo aparecia uma forte sensação de ameaça, como se algo violento estivesse ali, prestes a explodir. Isso surgiu espontaneamente. Começamos a improvisar e surgiu essa ameaça de algo violento, mas que nunca acontece. Não foi algo que eu pedi na direção.
Depois de duas semanas de ensaio houve um trabalho de todo o elenco que permitiu que a energia fosse para lugares mais altos, como quando os meninos correm de costas rapidamente. Algo que também não foi pensado previamente, e sim uma prática muito familiar para um dos intérpretes, que anda de patins.
**A ficha**
Bruno Beltrão nasceu em 1979 em Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro. Desde menino se interessava por esportes como vôlei e futebol, e também por cinema. Aos 13 anos descobriu de forma casual a dança de rua. No ano seguinte começou a fazer aulas com o professor israelense Yoram Szabo e, em 1996, com apenas 16 anos, criou a companhia Grupo de Rua junto a seu amigo Rodrigo Bernardi. Paralelamente estudou dança contemporânea no Centro Universitário da Cidade, no Rio de Janeiro. Em 2001 estreou na cena contemporânea de seu país com o duo *Do Popping ao Pop ou Vice-Versa*, e desde então se esforça para libertar a dança urbana dos padrões e convenções que a limitam.
O Grupo de Rua ganhou prestígio mundial em 2002 quando foi convidado para o prestigiado festival francês Rencontres Chorégraphiques de Seine-Saint-Denis. Com oito espetáculos estreado e apresentados em mais de vinte e cinco países, Beltrão é reconhecido como uma das personalidades mais influentes da dança contemporânea do Brasil.
“*H3* constitui um espaço radicalmente novo: um lugar onde aqueles que vinculam dança ao urbano encontram imagens mais cerebrais.”


