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O Traidor
Bruno Beltrão é considerado um dos talentos coreográficos mais empolgantes do Brasil.
Friedhelm Teicke
Zitty
Quem aprendeu dança na rua, no hip-hop e no breakdance, aprende a ser resistente. No caminho para a nossa entrevista, Bruno Beltrão sofreu um acidente de bicicleta. Sangrando, com a perna machucada, ele chega atrasado. “Não, não preciso de médico, tudo bem, está tudo certo. Vamos fazer a entrevista — só preciso levantar um pouco a camisa.”
Uma ponte de 14 quilômetros, sustentada por 350 pilares duplos, liga Niterói ao Rio de Janeiro, na margem oposta. Sob a ponte larga corre a água da Baía de Guanabara. O passeio pela cidade de 500 mil habitantes, turística desde 1975, é parada obrigatória para quem visita o Rio.
A companhia que ele dirige carrega no nome a origem de um dos mais vibrantes e bem-sucedidos talentos emergentes do Brasil. Na cena de dança de rua, Beltrão é há anos uma estrela, uma atração do breakdance. Aos 15 anos, organizava “battles”, competições de hip-hop; excursionou com seu grupo de dez dançarinos por todo o país tropical e apresentou sua arte acrobática diversas vezes na televisão.
“Fazíamos dança de rua comum, breakdance tradicional”, diz Bruno. Mas então um festival de dança o convidou para apresentar uma pequena performance na abertura. O evento reunia os melhores b-boys de 18 anos do país. Headspins, popping e up-rock eram o padrão máximo.
Esse foi o primeiro passo de Bruno Beltrão rumo a fazer a estética do hip-hop tropeçar — e deslocá-la para o território da dança contemporânea.
“Hoje se lançam muitos sinais, e é preciso cuidado para que eles não se esvaziem”, explica Bruno. “Também gosto de reflexão: quero que o pensamento dialogue com o que é visível.”
Dessa investigação surgiram obras como Too Legit to Quit e From Popping to Pop or vice versa, apresentadas no festival Tanz im August, em Berlim. Coreografias que desmontam, com ironia afetuosa, o repertório tradicional do hip-hop e o recarregam com movimentos da dança moderna. “Quando começamos a sair da cena hip-hop, abriu-se uma fissura entre nós e o movimento. Eles acharam que já não fazíamos hip-hop.”
O renomado Panorama RioArte Festival apresentou Beltrão em 2001 com a obra H3. Companhias como Cia de Dança, Balé do Rio de Janeiro e Grupo Corpo também estavam no programa. A crítica se encantou. “Beltrão transforma sua personalidade aparentemente discreta em movimentos de enorme substância.” O jornal O Globo o proclamou Artista do Ano.
Sob o tema hip-hop, também foram selecionadas obras de coreógrafos como Jérôme Bel, Xavier Le Roy e Oleg Soulimenko. “Foi um passo crucial rumo ao Tanztheater para nós”, explica Beltrão. “Com H3, de repente tivemos acesso a um público que normalmente não assiste hip-hop.”


