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Televisão como ópio para o capitalismo
Telesquat: hiphoppers revoltosos enganam o espectador
Kurt Smeets
Veto 30-3
Abrir um festival de dança com uma apresentação teatral de seis horas é, para dizer o mínimo, incomum; lançar no dia seguinte, em uma estreia europeia, a jovem força do hip-hop brasileiro confirma mais uma vez a imagem inovadora do Klapstuk. É bonito, acha também Bruno Beltrão, que a dança contemporânea veja a luz do dia em uma cidade superpovoada por jovens. A Veto conversou com ele sobre a guerra na CNN, a dúvida torturante de um artista e a absurdidade da nossa conversa sobre arte.
Kurt Smeets
Ele tem apenas 23 anos, Bruno Beltrão, menino prodígio da dança brasileira e fundador do Grupo de Rua de Niterói, que nas noites de segunda e terça-feira virá encenar novamente no Stuk o genial *Telesquat*. Em uma mistura ousada de *streetdance* e dança contemporânea, e com a ajuda de técnicas multimídia, eles retiram qualquer ponto de apoio do espectador e o forçam a questionar cada movimento, cada imagem, cada legenda. Um espetáculo sobre a relação problemática entre expressão e vivência, entre os sintomas da nossa vida mental que aparecem no mundo exterior no lugar do que se passa no mundo interior. Uma crítica à mídia de massa que atrela um significado unívoco a cada expressão e, em seguida, vende isso ao espectador como algo salvador. Um apelo para sermos críticos em relação à televisão e à normalidade à qual devemos corresponder.
A realidade física dos corpos dançantes é continuamente manipulada por uma realidade virtual de imagens e legendas que disparam uma cacofonia de informações contraditórias sobre o espectador. Apenas nessa confusão, onde você busca em vão por uma mensagem subjacente, uma terceira realidade invisível se revela quando, como espectador, você se desprende da vontade de explicar ou compreender e se deixa levar pelos movimentos que acontecem no palco a uma velocidade vertiginosa. Falar sobre arte é, portanto, absurdo.
Pode ser divertido trocar interpretações, diz Beltrão, mas no final das contas a arte gira em torno de uma sensação intuitiva que não pode ser colocada em palavras. Assim como na apresentação de abertura na sexta-feira, onde sete narradores se interromperam durante uma noite inteira exatamente no momento em que um deles ia alcançar o cerne de sua história, esta peça carece de uma conclusão. Afinal, a arte não é sobre o que você mostra, mas sobre a maneira como você o faz. Ele afirma: «Não cabe a mim dizer: você deve duvidar do que lhe é apresentado, deve duvidar do que assumiu como verdadeiro.
Isso seria tão manipulador quanto a televisão. Tento apenas semear confusão na maneira como o espetáculo é apresentado, na esperança de que os espectadores, no ato de duvidar, refinem sua própria atitude perante a vida e, no melhor dos casos, no dia seguinte olhem para a televisão de uma maneira diferente.»
**Pompidou**
A televisão simplifica a realidade: bombas destroem Bagdá e a única crítica permitida são relatos sobre *danos colaterais*, mas ao mesmo tempo a frieza de um bombardeio causa muito medo. Uma guerra sempre terá um efeito traumatizante, não importa quais bombas de precisão de alta tecnologia sejam desenvolvidas. Sobre essas emoções de horror, sobre o medo constante que oprime as pessoas, você não ouve nada na CNN. A realidade é mostrada e apresentada como um fato. Isso é possível desde que você foque apenas em casas destruídas ou corpos carbonizados, mas a vivência das pessoas que se escondem em abrigos antiaéreos você não consegue tornar palpável se mostrar apenas fatos. Beltrão combate esse realismo enfatizando a importância do relativismo. Cada fato é percebido de forma diferente pelas pessoas, dependendo de sua bagagem cultural e de sua história pessoal. A televisão já mastiga o valor que o espectador deve atribuir a um determinado fato.
O problemático é que a mídia de massa faz parte de um sistema capitalista no qual as pessoas são incentivadas a ter sucesso, o que é sinônimo de uma conta bancária recheada. «No Brasil há dezenas de milhões de pobres, mas eles seguem o sistema docilmente. A televisão lhes apresenta o *sonho americano* e é isso que eles perseguem a vida toda.
A maioria, claro, nunca consegue realizar esse sonho e, embora se esperasse que nesse momento eles se voltassem contra o sistema, vê-se que são tão viciados em televisão que, após um dia de trabalho duro para sobreviver, são ninados de volta ao sono diante da tela. Como se uma elite capitalista, via televisão, incentivasse os talentosos a se juntarem a eles e mantivesse os outros na linha com entretenimento. Com meus espetáculos, quero gradualmente atingir mais e mais jovens e dar um empurrãozinho para que questionem as verdades que receberam na mamadeira.
No entanto, percebo que eu também, junto com toda a minha geração, fui moldado de ponta a ponta pela televisão. Quando conto no Brasil onde me apresento por todo o lado, meus amigos também me veem como um *selfmade man* de sucesso. Isso me assusta e é por isso que também me questiono constantemente. Afinal, você não pode usar o sucesso apenas para encher os bolsos, mas também para contribuir para um mundo melhor, então talvez o sucesso em si não seja necessariamente algo negativo.
Embora, claro, possa ser viciante e te deixar apático.» A força de Beltrão é que ele usa a própria televisão para denunciar o meio. Ou como ele desconstrói pouco a pouco não apenas a dança, mas também a televisão. «Meus trabalhos colocam o Centro Pompidou em movimento, uma estrutura de tubos dançante que, ao enganar o espectador, expõe a fraude.»
**Matrix**
Onde seu trabalho anterior se situava completamente dentro da cultura hip-hop, Beltrão agora conecta a *streetdance* à dança contemporânea, questionando não apenas o *breakdance*, mas também trazendo um sopro de ar fresco ao mundo da dança contemporânea. Ambos, afinal, estavam sem fôlego e marcando passo no mesmo lugar. A voz subversiva do hip-hop, que em seu idealismo juvenil ainda ousava combater o sistema, definhou e foi comercializada e engolida por uma cultura MTV intrusiva. Até a dança contemporânea começou a apresentar traços burgueses. Com a fusão de ambos os estilos, ele trouxe renovação e criou uma plataforma onde eles pudessem questionar um ao outro.
Beltrão conta que nos diferentes países onde se apresentou as reações ao espetáculo também foram diferentes. Foi, portanto, um grande alívio que o público de Leuven tenha reagido com entusiasmo à estreia de sábado. «O hip-hop pode ser uma linguagem universal para os jovens, mas resta saber se eles também serão cativados por ele, se também entrarão na peça. Talvez isso funcione melhor com *Telesquat* do que com nossas produções anteriores, que criticavam a própria cultura hip-hop como ela é conhecida no Brasil.
O perigo é maior de que em outros lugares do mundo o público vivencie nossas criações como entretenimento descerebrado, enquanto na verdade estamos desenvolvendo uma linguagem crítica de hip-hop. Em *Telesquat* usamos essa linguagem para abordar outros temas.» Quem pode negar que uma playlist com músicas de *O Sexto Sentido*, *Armageddon*, *Matrix*, *O Exorcista* e *Missão Impossível* soa universal? A ideia para *Telesquat* também surgiu da experiência de que a televisão influenciava fortemente a vivência dos espectadores em diferentes lugares do mundo.
Assim, o público em Berlim considerou sua produção anterior *Too legit to quit* mais como uma caricatura irônica do hip-hop, enquanto os espectadores brasileiros reconheceram nela uma nova forma de hip-hop, porque podiam acompanhar de perto a evolução do hip-hop pela televisão.
Por fim, ele faz uma proposta legal ao Stuk com a qual concordamos plenamente: *Telesquat*, segundo ele, só atinge seu potencial máximo se o público puder buscar esferas mais altas através de meios legalizados. E para essa vez que ele se apresenta no nosso pequeno país, vale a pena experimentar isso uma vez... De qualquer forma, se você quer refletir sobre si mesmo e se mover no ritmo da arte do amanhã, o Stuk é *the place to be* nas próximas semanas!
*Esta semana estão na programação, sempre às 21h00, os espetáculos de dança Telesquat (Grupo de Rua de Niterói), O tâche(s) sur ont été effectuée(s) correctement (Grand Magasin) e Both sitting duet (J. Burrows & M. Fargion). Além disso, no lounge você pode assistir às apresentações de vídeo Videos e Insults & Praises (Vlatka Horvat). Todos os dias às 20h00 você pode aproveitar gratuitamente o programa preliminar Le Séminaire e o Cinema Zed também exibe alguns filmes que fazem parte do festival. *
*Mais informações em www.stuk.be.*


